sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Micheliny Verunschk fala do tabu do suicídio na religião católica em novo livro – Por Diogo Guedes


Da imagem de uma menina suicida enterrada vestida como santa, a escritora pernambucana radicada em São Paulo Micheliny Verunschk criou o ponto de partida para seu primeiro romance, chamado Nossa Teresa, vida e morte da uma santa suicida. 

Publicada pela Editora Patuá e feita com uma bolsa literária da Petrobras, a obra trabalha justamente esse tabu dentro da religião católica, uma forma de homenagear e expurgar o próprio tema, segundo a autora. A prosa delicada de Micheliny, com um ritmo envolvente e impactante, é apresentada ao público pernambucano hoje.

A poesia de Micheliny já tem uma fama e uma trajetória forte. Para sua estreia nas narrativas longas, no entanto, ela achou uma abordagem pessoal e distante ao mesmo tempo. 

O volume começa com a morte da jovem Teresa, uma menina tida santa que decidiu se matar. O paradoxo da escolha de Teresa é justamente o motor da obra, que é contada por um narrador que intervém, manipula e até ironiza o leitor.

O que é poderoso no romance é a presença de reflexões e transfigurações de mitologias católicas sem tornar Teresa apenas um ensaio sobre o suicídio. Não se trata de um ponto de vista moralista; Teresa é santa não “apesar” de ter se matado, mas também por isso.

A proximidade de Micheliny ao tema, ela perdeu amigos e um ex-aluno que decidiram se matar, e dedica a obra a eles, foi outro ponto de partida. 

“É um tema que me move e comove. Quando meu amigo Rubens se matou eu precisei lidar com muitos sentimentos confusos, entre eles a raiva que senti por ele ter decidido partir”, expõe. 

“Não sei se ajudou, mas deu forma a algumas ideias”. A autora explica, ainda, que falar em suicídio dentro do universo da religião é revolucionário: “o ser humano afasta o papel de Deus como responsável pela sua vida (e pela sua morte) e define, ele mesmo, o ponto final”.

No próprio livro, o narrador interrompe a história para levar o leitor através dos tempos e até refletir sobre a criação de uma narrativa. 

“Tudo o que depende da linguagem se move sem que se possa determinar fielmente o seu roteiro”, comenta, em uma das passagens. “Esse narrador, esse velho, descobri aos poucos. Me parecia que cabia bem a ele uma certa arrogância divina”, conta a escritora, citando outros narradores-personagens, como os de Machado de Assis e José Saramago.

A linguagem particular da obra também é notável, ainda mais sendo a primeira incursão de Micheliny nas narrativas longas. 

“Encontrar um tom e um fôlego para um voo maior foi um desafio. Porque eu não queria uma trama direta, que eu resolveria talvez em cinco páginas. Eu queria que o leitor fosse enredado, seduzido. Precisava de um ‘canto de sereia’. E nisso, acho que a poesia me ajudou. Porque ela me auxiliou a descobrir a música dentro de uma narrativa longa”, aponta.

Leia um trecho do romance:


"Nunca, em outros tempos, se alardeara com tanta veemência a existência de santos suicidas, pois pela tradição daqueles que costumam ou julgam saber das ordens e mandos de Deus, ou como quer que ele seja nomeado pelas várias religiões que infestam o mundo como uma praga do próprio Criador, o jardim celestial fecha terminantemente seus portões com travas, ferrolhos, cadeados, grossas correntes a todo homem ou mulher que, em gesto de insana profanação, atenta contra o que é de menos seu, contra o que lhes é dado apenas por empréstimo, o bem mais precioso, a vida. Nenhuma misericórdia! Gritam os pregoeiros da palavra e vontade divinas. E quando isto proclamam, saiba-se que nenhuma piedade concederão aos que injuriam a carne com a morte escolhida, prerrogativa do mesmo Deus, senhor que a uns acolhe e a outros não e que, cioso de suas tarefas, quer sempre definir a hora, o local e os meios, desconsiderando, é claro, essa tolice com que tantos se enganam, essa bobagem de livre-arbítrio que só tem a serventia de enganar a humanidade a propósito da falta de pulso sobre seu próprio destino. Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade. Num mundo em que homens e mulheres pudessem, sem culpas ou danações, se apoderar de suas vidas e mortes, Deus seria condenado ao vazio, como um velho que esclerosa e vai sendo despido, graciosamente, e aos poucos, do respeito grave com que era considerado quando em uso da razão".

(...)

"Ora, se nunca se anunciara com tal fervor a existência de santos suicidas é que nunca antes se oferecera o patronato de um desses santos aos próprios suicidas. Nunca existira um alguém a quem se interceder por essas almas. Alguém que soubesse na carne e no espírito os caminhos e descaminhos que levam ao ato extremo. E é a história desse santo, sua vida e morte, seu polêmico percurso, que aqui se vai relatar. Melhor dizendo, dessa santa, porque cabe às mulheres desde sempre, de Pandora à Eva, a faísca da subversão, a quebra de valores, a assumida falta de pudores e um extremo gosto pela transgressão. Advirto, porém, que não me venha tomar o leitor como um panfletário, um vulgar levantador de bandeiras. Tão somente conto histórias das quais apenas ouvi falar ou que, quando muito, tive discreta, quase despercebida participação. Sou um velho que muito já viu e viveu e que nem sempre consegue escolher ou esconder simpatias e antipatias. Mas garanto que apenas dou conta do que todos dizem ou sabem, embora às vezes finjam que não disseram ou soubessem. E é esse o meu ofício de narrar. Poderia ser outro, mas é esse e dele me agrado".



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