quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Documentários sobre a resistência protestante durante a ditadura e na atualidade estreiam no Rio de Janeiro


Durante o regime autoritário, com a dissolução oficial de uma série de organismos políticos, vários deles empurrados para a clandestinidade, as instituições religiosas foram de grande importância para a sobrevivência de focos de luta pela democracia.

No entanto, esta memória é rarefeita, assim como o reconhecimento da sociedade sobre o papel que as igrejas desempenharam na organização popular e resistência contra a ditadura. 

Um dos resultados é a predominância de uma versão da história que identifica os religiosos, sobretudo os cristãos, sumariamente com o conservadorismo e o apoio ao regime militar.

Ao contrário do que diz a versão predominante, ontem como hoje, as instituições religiosas continuam sendo espaços de disputa entre forças sociais com diferentes visões políticas sobre a prática da fé. Os filmes: 

“Muros e Pontes: Memória Protestante na Ditadura” e “Juventude e Lutas Ecumênicas”, dirigidos por Juliana Radler, com lançamento no seminário: Protestantes, Democracia e Ditadura, buscaram capturar a complexidade dessas tendências no interior do universo religioso protestante. O primeiro documentário retrata a geração pós-64 e o segundo, a experiência dos jovens protestantes ecumênicos de hoje.

A diretora dos documentários Juliana Radler se diz surpresa ao ter se deparado com um passado protestante com ideais tão progressistas. 

“Eu realmente não conhecia essa história da juventude protestante na resistência à ditadura. Crescemos ouvindo relatos de pessoas que desapareceram, entraram para a luta armada até, movimentos que se formaram durante a época. Agora, movimentos que envolviam de uma maneira tão profunda membros de igrejas protestantes, não tive notícia. Muito presente é o papel do ecumenismo, do respeito à fé das outras pessoas como porta para a luta pela democracia. São pessoas que deram suas juventudes por uma causa e merecem o devido reconhecimento”.

Apesar de destacarem a diferença dos contextos históricos, os jovens fazem paralelos entre os desafios da geração pós-64 e os jovens religiosos de hoje, engajados nas lutas por transformações dentro e fora das igrejas.

“Há opressões que vão se repetindo, perseguições nas igrejas acontecem. Quando temos, por exemplo, um ministro, um pastor, que traz um diálogo mais aberto, em que recebe o homossexual, o diferente, o conselho da igreja rapidamente dá um jeito de tirar esse pastor dali. E aí é olhar para essa juventude [do passado] que não teve medo, que se posicionou, que foi contra e não perdeu as esperanças”, observa a jovem Mariana Zuccarello, da Rede Ecumênica da Juventude (Reju), em um de seus depoimentos no segundo vídeo.

Dando fim ao hiato histórico

A missionária da Igreja Metodista Unida dos EUA e assessora de KOINONIA, Marilia Schüller, foi quem coordenou o projeto: “Protestantes, Democracia e Ditadura”, que dá origem aos documentários. Para ela, a iniciativa, que além dos filmes, tem como resultados um livro e a publicação de um acervo digital sobre o tema, vem preencher três lacunas importantes na memória do período militar: 

“A primeira lacuna é que os registros mais conhecidos se prendem aos movimentos de resistência urbanos, deixando um pouco de lado as periferias rurais e os movimentos de igrejas; a segunda, a pouca atenção dada a contribuição da teologia da justiça social para as ações de resistência; e a terceira, como consequência das duas anteriores é a difícil conexão entre as lutas dos religiosos do passado e as de hoje, a visibilidade de um protestantismo ecumênico”, explica.

O anglicano Daniel Souza, integrante da Reju, é um dos jovens que participa do documentário sobre as lutas ecumênicas atuais. Daniel destaca que as políticas de reconstrução da memória, não são apenas uma necessidade, mas um direito. 

“O direito à memória é fundamental porque faz a transição histórica da trajetória dos protestantes da geração que pega o período de 64 a 85 com a nossa geração. Há um verdadeiro hiato histórico quando olhamos a trajetória da mobilização política protestante. A memória também é importante para apontar os culpados, nomear os responsáveis, para garantir a justiça”, ressalta.






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