quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Compreendendo as origens do ódio religioso – Por Philip Jenkins


Será que as origens do ódio religioso estão na ruptura brutal com as crenças familiares?

No início da minha carreira, o meu foco de atenção era o nascimento da história britânica moderna, com ênfase especial nos conflitos religiosos e na violência. 

Ao repassar esses estudos, eu percebo cada vez mais a existência de paralelos entre aquele tempo e as manifestações de ódio religioso e de intolerância que tanto perturbam o nosso mundo contemporâneo. Embora aqueles eventos históricos do início da modernidade britânica já estejam distantes no tempo, eles ainda têm muito a nos dizer hoje em dia.

A Grã-Bretanha, no século XVII, era oficialmente uma nação protestante anglicana, que penalizava as práticas católicas de maneira implacável. Mesmo assim, minorias dissidentes, ou seja, os católicos da resistência, sobreviviam em certas regiões, principalmente a norte e oeste do país. 

Em períodos normais, eles eram mais ou menos deixados em paz, mas, de vez em quando, eram submetidos a surtos ferozes de violência e de perseguição. 

A pior dessas crises de violência aconteceu entre os anos de 1678 e 1682, quando muitos católicos, tanto clérigos quanto líderes leigos, foram presos e dezenas deles foram executados, em resposta a um surto de histeria paranoica que se tornou conhecido como "Complô Papista". De longe, a maior dessas selvagerias ocorreu numa área de fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, nos condados de Monmouth e Hereford.

Cinco sacerdotes daquela região morreram no cadafalso e vários outros na prisão. Três deles foram caçados até a morte, "sendo martirizados pela miséria e pelos sofrimentos dos seus esconderijos nas montanhas, nos bosques, nas tocas e nas cavernas". 

Muitos leigos católicos também sofreram. Alguns magnatas locais, convertidos ao protestantismo anglicano, se tornaram caçadores de sacerdotes católicos em tempo integral, dedicando-se a extirpar qualquer tipo de manifestação do catolicismo. E conseguiram grandes sucessos nessa empreitada. Naquela mesma área de fronteira, por exemplo, uma missão jesuíta que estava prosperando com força acabou sendo completamente eliminada.

Mas por que esse fanatismo todo, que, em termos contemporâneos, equivale ao "antipapado", foi tão extremo e assassino assim? A resposta, surpreendente, ficou mais clara para mim quando eu observei com atenção as origens dos piores desses fanáticos.

Em praticamente todos os casos, os extremistas protestantes tinham origens católicas. Mais do que isso: em anos anteriores, eles próprios tinham ajudado e abrigado sacerdotes católicos. No geral, tratava-se de homens de famílias divididas entre o protestantismo e o catolicismo; famílias que, inclusive, tinham membros que eram padres da Igreja católica. Os casamentos mistos, entre protestantes e católicos, se tornaram bastante comuns naquela região.

Os sacerdotes que eles perseguiam não eram apenas vizinhos, mas, em boa parte dos casos, eram também parentes próximos. Os extremistas protestantes eram desertores recentes da antiga fé católica, duplamente zelosos, talvez, para justificar a sua nova visão espiritual de mundo e para extirpar aqueles que agora eram seus “inimigos”.

Um exemplo clássico desta situação foi o de um escudeiro chamado Charles Price, fanático protestante que liderou um ataque armado contra a sede local dos jesuítas e que caçou até a morte um dos sacerdotes. 

Mesmo depois que o padre estava morto, Charles Price insistiu em exumar o seu corpo para confirmar que ele tinha mesmo sido assassinado. O sacerdote vítima desse ódio patológico foi Walter Price: seu próprio primo. 

Outros sacerdotes tinham comentado, muito recentemente, sobre o grande amigo e apoiador que Charles Price tinha sido sempre. De repente, porém, Charles Price se voltara com fúria contra a sua fé anterior e passara a usar a crise política como contexto para destruir os seus antigos amigos.


Outro homem que se tornou ativista e informante anticatólico foi Edward Turberville, cuja família tinha tido dezenas de membros presos por causa da sua lealdade católica entre os anos de 1580 e 1620. Seu irmão, inclusive, era abade beneditino. 

Ao longo do século XVII, Edward foi um dos poucos Turbervilles que não eram católicos. Assim como Charles Price, ele era um recém-convertido protestante que, agora, tinha passado a querer destruir a fé católica.

Pelo menos naquela área da Grã-Bretanha, a crise do "Complô Papista" parece ter sido uma briga de família, se não uma guerra civil dentro da antiga comunidade católica.

Essa ideia de que os recém-convertidos se tornam pessoas extremamente zelosas no tocante à nova causa que abraçaram não é surpreendente. 

O próprio Shakespeare observou que as “heresias” que os homens abandonam se tornam mais profundamente odiadas por eles. Mas devemos acrescentar a isto a dinâmica e as tensões de uma comunidade em que alguns indivíduos se apegam às antigas práticas enquanto outros se convertem passionalmente a uma nova fé. 

Se duas comunidades de diferentes religiões vivem próximas uma da outra e cada uma é razoavelmente homogênea, ambos os lados podem ir sobrevivendo e encontrando maneiras de se dar bem. A situação se torna crítica, no entanto, em épocas de conversão muito rápida, quando as famílias são forçadas a tomar partido e escolher um lado ou o outro. Nesses casos, literalmente, irmão se volta contra irmão.

Esta deve ser a situação de guinada na lealdade religiosa mencionada no Evangelho de Mateus, capítulo 10. Jesus avisa aos seus seguidores que haverá um tempo em que "irmão entregará à morte o próprio irmão e o pai entregará o filho; os filhos se rebelarão contra seus pais e os condenarão à morte".

Aplicar esses precedentes ao mundo de hoje nos ajuda a compreender um pouco melhor as origens do ódio religioso. Se uma pessoa se manifesta venenosamente contra uma fé em particular, a minha primeira pergunta é se essa pessoa foi criada naquela fé e se alguma vez já sentiu especial amor ou lealdade para com essa tradição. Muitas vezes, este é exatamente o caso. 

Os inimigos mais furiosos de uma fé, com grande frequência, são os seus filhos e filhas rebeldes. Da mesma forma, os críticos mais aguerridos da religião e da ortodoxia cristã costumam ser pessoas que vêm de ambientes fundamentalistas. É preciso prestar sempre atenção ao contexto dos desertores.

Muito mais sério em suas consequências, porém, é o caso dos cristãos convertidos ao islã que adotam visões jihadistas extremas. 

Obviamente, a grande maioria dos convertidos ocidentais não tem nenhum envolvimento em crimes ou ilegalidades, mas uma minoria significativa tem. E essa minoria é muito bem representada nas células extremistas da Europa e da América do Norte. Pessoas recém-convertidas, por exemplo, foram as responsáveis por dois ataques terroristas de grande repercussão cometidos em outubro passado no Canadá.

Também vemos muitos paralelos com a situação do "Complô Papista" nas comunidades religiosas “misturadas” que estão espalhadas pelo mundo, especialmente na África. 

Cristãos, muçulmanos e animistas coexistiram amigavelmente durante gerações. De repente, porém, ideias religiosas novas e mais passionais penetram na comunidade, desestabilizando a ordem social e provocando a violência. 

Famílias muçulmanas produzem islamistas passionalmente devotos; cristãos adotam crenças pentecostais e evangélicas radicais. As famílias se dividem, com a alarmante consciência de que os seus filhos e netos poderão desertar e abraçar uma fé que a geração mais velha achava abominável. É esta ameaça à continuidade da família o que impulsiona as pessoas a cometerem ações extremas, inclusive de guerra.

Nenhuma religião e nenhuma escritura detém o monopólio do ódio ou da violência. Em vez de acreditar nessa tese generalizante, podemos explicar muitas crises religiosas por meio da instabilidade causada pelas conversões rápidas, em especial nas sociedades alicerçadas no clã e na lealdade da família estendida.

Como todos sabemos, não existe nenhum conflito mais virulento do que os conflitos que acontecem dentro de uma família.





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