segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O espírito imortal de Charlie - Por Sérgio Abranches



“A França é o paraíso”, diz o extraordinário Georges Wolinski, para o não menos extraordinário Cabu (Jean Cabut), em diálogo na reunião de pauta, em 2006, na Charlie Hebdo, quando discutiam a publicação das caricaturas dinamarquesas retratando Maomé.

O diálogo foi registrado por Jérôme Lambert e Philippe Picard, no documentário: “Charlie Hebdo: rire de tout, toujours” (com legendas em inglês). Wolinski falava da censura ideológica.

Ele disse isso porque na França era possível fazer caricaturas de qualquer líder político ou em relação a qualquer tema ou religião. 

François Hollande que o diga. Foi retratado com total irreverência na capa de Charlie Hebdo e indignou-se com a morte dos caricaturistas. A república francesa, retratada pela figura de mulher com a faixa trazendo os dizeres: “Liberté, égalité, fraternité”, que é, sem dúvida, a mais laica das repúblicas.

A Revolução Francesa foi, também, um movimento por um estado laico. Em um país que foi sede do papado, no século XIV. A revolução foi, sob este aspecto, muito bem sucedida. Hoje, a república surgida do 14 de julho é a mais completa expressão do estado laico. Mas, a frase de Wolinski, estava carregada de ironia e verdade.

Não se deve levar humoristas, mesmo jornalistas, tão a sério a ponto de não rir deles. Nem se deve subestimá-los, a ponto de não refletir sobre o que dizem. O brilhante e irreverente cartunista tunisiano, Wolinski, sabia do que estava falando. No Maio de 1968, uma das armas mais eficazes do movimento foi o humor irreverente.

Lembro-me, estudante, de me divertir com um livro que reproduzia cartazes, pichações e faixas espalhadas por Paris. Nunca me esqueci de uma delas, a menos política, mas que expressa bem o deboche inteligente: “Freud era um filhinho da mamãe”.

Mergulharíamos no arbítrio, no final de 1968, com a edição do AI-5, enquanto a França marchava para ampliar as liberdades, reformar o ensino, consagrar a vitória do Maio de 68.

Charlie Hebdo, como bem lembrou Laurent Joffrant no editorial do jornal Libération, o Libé, nasceu sob o gaullismo autoritário e foi censurado por ele. Mas sobreviveu a ele, para tornar-se o símbolo da irreverência e da rebeldia do “chienlit”, do Maio de 1968. 

Eles martelaram sem cessar por mais liberdade, derrubaram todos os tabus, ridicularizaram todos os dogmas, eles nunca se desviaram, diz Joffrant. 

De fato, sempre encarnaram o espírito irreverente, libertário e aberto da geração de 1968, ajudando a alargar o espaço do livre arbítrio e da liberdade de expressão.

Qual a relação entre esse alargamento da liberdade e o estado laico? O estado laico é o único que assegura plena liberdade de pensamento religioso e de culto. Nele, todas as religiões têm tratamento igual e podem ser livremente praticadas, do mesmo modo que o agnosticismo e o materialismo.

O estado laico não é contra a religião, é a garantia de todas as convicções, inclusive dos que não têm fé. Toda vez que uma religião se apossou do estado deu em perseguição, tortura e morte. Como na Inquisição realizada a ferro e fogo pela igreja católica. Toda vez que estado e religião se misturam, acaba em algo igual à inquisição.

Esse espírito da liberdade e da iconoclastia, os conservadores, autoritários, extremistas, obscurantistas não conseguirão eliminar, matando os libertários do Charlie Hebdo

O espírito de Charlie Hebdo, esse espectro iluminista que assombra os autoritários e fanáticos sobreviverá. Ele vem de longe e ainda vai longe. 

Sempre haverá um Charlie Hebdo para usar o humor e o riso contra eles. Sempre haverá, como agora, uma séria demonstração de que não são poucos os que não abrem mão da liberdade.

É certo que a morte deles não é um golpe pequeno. É um duro, trágico e triste golpe. Mas a reação tem sido do mesmo porte, em todo o mundo. 

Charlie Hebdo é um vírus imbatível, por isso o hashtag: #JeSuisCharlie viralizou e juntou o ciberespaço a numerosas praças e ruas reais de todo o mundo, ocupadas, como as redes, por uma multidão dizendo eu sou Charlie.

Muçulmanos que adotaram a contrapartida #JeSuisAhmed, se referiam ao policial também morto. E exprimiam o espírito da liberdade, expresso na máxima iluminada de Voltaire, dizendo que não concordavam com a irreverência de Charlie Hebdo com sua religião, mas morriam defendendo o direito de expressá-la. 

Um princípio que garante o direito de livre expressão do pensamento e o direito de defesa. Foi por ele que o católico fervoroso, Sobral Pinto, defendeu o comunista e materialista Luiz Carlos Prestes.

Há, claro, um final mais infeliz para essa tragédia. Está expresso na opinião de muitos. Seria um dos cenários do qual falou o sociólogo Michel Maffesoli em entrevista a Fernando Eichenberg, de O Globo

a reafirmação do radicalismo, o crescimento da islamofobia, da ultradireita, com o correspondente agravamento das condições que ajudam a nutrir o fanatismo de jovens muçulmanos. Seria uma traição ao espírito de Charlie Hebdo, um golpe mais capaz de enfraquecê-lo que o assassinato do 7 de janeiro.


Mas há um final luminoso, aquele pelo qual Charlie Hebdo se batia e que vem no sopro de seu espírito: o que Maffesoli chamou de mosaico. 

O fortalecimento do compromisso com a diversidade, o reconhecimento pelos diferentes de que só um estado aberto e laico, uma coletividade pluralista e cosmopolita podem permitir a realização de todos os pedaços desse mosaico globalizado que estamos construindo. 

#JeSuisCharlie



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