sexta-feira, 27 de março de 2015

Clássico cyberpunk, "Snow Crash" compara religiões a vírus de computador.



Um dos clássicos do estilo cyberpunk, “Snow Crash” (Aleph), Neal Stephenson, é uma bizarra combinação de ficção científica, religião, computação, história, linguística e ação. Uma combinação que, apesar de estranha, funciona.

A narrativa acompanha Hiro Protagonista, hacker, espadachim e entregador de pizzas da máfia, que acaba se aliando a Y. T., uma adolescente skatista radical, também entregadora. Eles acabam enfrentando uma conspiração de um culto que possui uma espécie de vírus de computador que infecta seres humanos.

Stephenson consegue apresentar o cérebro como um hardware e a mente como um software, passível de ser infectado pela linguagem. Para ele, as religiões usam a mesma estratégia dos vírus, para infectar cada vez mais mentes.

O livro apresentou ou popularizou conceitos que se tornaram padrões na internet. Você já enviou um e-mail com endereço errado e recebeu uma resposta de um tal “mailer-daemon”? Pois os “daemons” são os programas descritos no enredo de “Snow Crash”, que replicam o comportamento humano e exercem até a função de leões de chácara em bares virtuais.

E, se personagens do tipo “hacker, espadachim, entregador de pizza” parecem ridículos, é porque eles são mesmo. Talvez o mais absurdo seja um mercenário chamado Corvo: um gigante baleeiro que é descrito quase como o personagem de Danny Trejo no filme: “Machete” (2010), só que anabolizado e locomovendo-se com nada menos que uma Harley Davidson, tem uma bomba nuclear a tiracolo e as palavras “sem controle emocional” tatuadas na testa.

Autossátira do cyberpunk

Depois de se popularizar durante os anos 1980, o estilo cyberpunk, que tem como principais expoentes “Neuromancer”, de William Gibson, e “Blade Runner”, de Philip K. Dick, estava entrando na autossátira em 1992, quando “Snow Crash” foi lançado. 

Pode se dizer que o livro quase está para o cyberpunk como o “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, está para os filmes de kung fu dos anos 1960 e 1970. É uma versão elevada ao absurdo que, ao mesmo tempo, homenageia e satiriza o gênero.

Mas “snow crash” é jargão de informática. Significa um crash de sistema, uma falha, num nível tão fundamental que fragmenta a parte do computador que controla o feixe de elétrons no monitor, fazendo ele jorrar descontrolado pela tela, transformando a grade perfeita de pixels numa nevasca turbilhonante. “Snow Crash”, de Neal Stephenson.

Previamente lançado no Brasil com o título: “Nevasca”, a obra popularizou a ideia do “avatar”, um representante do usuário dentro do computador. Também há um “metaverso” que parece um Second Life turbinado; um Bibliotecário, que é tipo um precursor do Google, além de “gárgulas” que tudo filmam e que lembram nossa realidade de smartphones onipresentes.

“Snow Crash” é ambientado em uma Los Angeles do século 21. No enredo, o governo dos EUA entrou em colapso e se dividiu em diversos “países-franquia”. É uma realidade na qual o McDonald’s pode resolver virar uma nação autônoma, com suas próprias leis, policiamento e até moeda. 

O dólar real sofre uma hiperinflação tão galopante, que faz o Brasil dos anos 1980 parecer um oceano de estabilidade. É preciso, por exemplo, de quadrilhões para comprar um sanduíche.

É curioso como clássicos da distopia como “1984”, de George Orwell, mostravam um futuro no qual o governo controla cada aspecto da vida, enquanto em “Snow Crash” a distopia é justamente causada por um governo inexistente, que deixa espaço para corporações passarem a tratar nações como negócios. O governo central, no livro, é uma piada. Existe apenas para administrar a burocracia da própria existência.

E, se esse ambiente já não é complicado o bastante, Stephenson ainda consegue incluir mitologia e religião suméria no balaio, conforme são descobertas as origens ancestrais do tal vírus linguístico que pode infectar as pessoas. A linguagem, as histórias e os mitos são mostrados não como manifestações humanas, mas como entidades que usam os seres humanos como hospedeiros para continuarem vivas.

“Espere um pouco, Juanita. Decida-se. Esse negócio de Snow Crash é vírus, droga ou religião? Juanita dá de ombros. “Qual é a diferença? “Snow Crash”, de Neal Stephenson.

Stephenson encara seu universo com uma boa dose de humor. Ele não busca uma coerência “hard” em seu mundo, mas o torna absurdo para melhor espelhar a loucura do mundo real. É particularmente hilariante a rotina da mãe de Y. T., que é tão sem personalidade que nem é nomeada, conforme enfrenta sua rotina ridiculamente tediosa de trabalho para o governo central, que inclui ler por 15 minutos, contados no relógio para avaliação do supervisor, um memorando sobre estratégias de melhor distribuição de papel higiênico no escritório. 

O despejo de informações, no entanto, atrasa a narrativa em momentos “senta que lá vem história”, em que Hiro passa capítulos inteiros com um motor de busca sobre religiosidade suméria. Porém, ao mesmo tempo, é refrescante ver como o livro desdenha fórmulas. “Snow Crash” é uma combinação anárquica, sobre um mundo anárquico, e que não abre concessões para o leitor. Quem se aventurar pode ser recompensado com algo realmente único.

É uma combinação maluca com tudo para dar errado. Entrecorta ação frenética com capítulos paradões e abstratos, mas acaba funcionando na mente do leitor como o próprio vírus que retrata. Ele entra em sua cabeça e dificilmente sai dali.


“Snow Crash” – Neal Stephenson
Editora: Aleph
Número de páginas: 496




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