terça-feira, 28 de abril de 2015

Aproximação pelo diálogo - Por Alicia Ivanissevich e Henrique Kugler



A religião islâmica tem sido constantemente associada ao terrorismo. 

Em entrevista à CH, o cientista político brasileiro Hussein Kalout fala sobre causas e efeitos dessa visão deturpada e ressalta a necessidade de compreensão mútua entre o Ocidente e o mundo muçulmano.

Para o cientista político Hussein Kalout, é preciso abrir uma janela de diálogo urgente entre o Ocidente e o mundo muçulmano para superar a discriminação contra as populações que professam a fé islâmica.

Uma das principais arenas da geopolítica internacional atual, o Oriente Médio e o mundo árabe são mais conhecidos hoje no Ocidente pelos atos terroristas praticados por grupos religiosos extremistas do que por suas contribuições sociais, científicas e culturais. 

Segundo o cientista político brasileiro Hussein Kalout, esse lapso de comunicação, ou declínio do diálogo, entre o Ocidente e o mundo muçulmano tem origem em três axiomas: o colonialismo europeu perpetrado a partir do século 19, o alinhamento euro-americano ao Estado de Israel no conflito com os palestinos desde 1947, e as sucessivas e recentes intervenções militares e políticas em vários países islâmicos.

Para restaurar esses laços, Kalout, pesquisador do Centro Weatherhead de Relações Internacionais da Universidade Harvard (EUA), sugere construir pontes de compreensão mútua. Ele acredita que, em vez de tapar os olhos e acreditar no ódio deliberado de muçulmanos contra o mundo liberal ocidental, seria importante se debruçar sobre o axioma de causa e efeito da islamofobia. E adverte: 

“Sem políticas públicas para reduzir a marginalização, a exclusão e a xenofobia contra as populações que professam a fé islâmica, o problema persistirá”.

Nesta entrevista, Kalout fala sobre o Islã, terrorismo, discriminação e a necessidade urgente de diálogo.

É correto pensar que o terrorismo é uma deturpação total dos princípios da religião islâmica?

A religião muçulmana é orientada sob os princípios da paz, da temperança e da tolerância. O radicalismo religioso não é comum entre os adeptos da fé muçulmana, mas uma chaga que contamina, também, fiéis de outras religiões. Organizações terroristas como Al Qaeda, Jabhat Al-Nusra, Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) e Boko Haram deturpam de forma grotesca os princípios do Islã, cometendo atos de extrema barbárie e negligenciando a mensagem real do islamismo para acomodar seus interesses criminosos.

Em Estados não teocráticos, as doutrinas religiosas do Islã servem mais como parâmetros espirituais, éticos e morais de conduta do que efetivamente como eixos regulatórios de funcionamento da sociedade.

Então, podemos dizer que o radicalismo islâmico deriva muito mais de um conjunto de variáveis sociais e políticas do que de uma doutrina religiosa?

A causa e o efeito do extremismo islâmico não estão vinculados apenas ao hábitat cultural ou a arcabouços políticos, mas, preponderantemente, a condicionamentos sociais, como a marginalização, a ignorância e o desemprego.

A causa e o efeito do extremismo islâmico não estão vinculados apenas ao hábitat cultural ou a arcabouços políticos, mas, preponderantemente, a condicionamentos sociais, como a marginalização, a ignorância e o desemprego

O extremismo islâmico atinge, antes de qualquer outro arcabouço social, o próprio sistema sócio organizacional muçulmano. O Islã tem sido surrupiado, lamentavelmente, e usado como instrumento de manipulação pelos mercadores da religião, alguns destes, no entanto, estão a serviço de alguns países.

O Islã consciente e qualificado entende a mensagem divina como complemento às religiões monoteístas: o judaísmo e o cristianismo. Os cânones do islamismo não propõem a substituição e tampouco a revogação das doutrinas das demais religiões abraâmicas.

No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, os judeus e os cristãos fazem parte de Ahlul Kitab (os povos dos livros Torahe Bíblia). Isso se aplica a outras crenças ou cultos também.

O senhor escreveu recentemente que a hostilidade entre o mundo islâmico e o ‘Ocidente’ começou a partir do final do século 19. Por quê?

Na era contemporânea, o declínio do diálogo entre o Ocidente e o mundo muçulmano pode ser descrito à luz de três axiomas temporais importantes: o colonialismo europeu no mundo árabe e islâmico entre o século 19 e meados do 20; o inarredável alinhamento euro-americano ao Estado de Israel no conflito com os palestinos desde 1947 aos dias atuais; as sucessivas intervenções militares e políticas em vários países, como Iraque, Síria, Irã, Paquistão, Afeganistão e Líbia.

Para a sociedade árabe e islâmica, o colonialismo europeu não apenas buscava a exploração de suas riquezas, mas, sobretudo, pretendia descaracterizar o equilíbrio de seu arcabouço político, de seus costumes culturais e de sua organização social. Na psique islâmica, as potências ocidentais não compreenderam a universalidade da sociedade muçulmana e ignoraram a sua dinâmica uma vez que, pela força, buscaram impor modelos incompatíveis de governança, ou modelos pendulares de governança política. Ora apoiavam regimes ditatoriais, ora grupos políticos ultraconservadores afinados aos seus interesses, como a Irmandade Muçulmana, por exemplo.





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