quinta-feira, 28 de maio de 2015

A nova terra santa – Por Ricardo Feltrin


A coexistência entre estado laico e uma das maiores pluralidades religiosas do mundo transformam o Brasil no lugar perfeito para novas crenças que são motivo de polêmica em outros países.

Você tem alguma religião? Considera-se um cristão? Acredita em Deus? Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a chance de você ter respondido "não" a essas três perguntas é de apenas 8%. 

Essa é a porcentagem da população brasileira que declara não ter nenhuma religião, ser ateia ou agnóstica. Mas os cerca de 15 milhões de brasileiros declaradamente ateus ou agnósticos não vivem imunes a esse poder.

Pelo contrário. Enquanto você lê este TAB, a maior bancada do Congresso, a evangélica, age para mudar as leis de acordo com sua fé e dogmas. Às vezes a vítima está até na própria política: este ano, o deputado Cabo Daciolo foi expulso do PSOL porque queria substituir a expressão constitucional "todo poder emana do povo" para "todo poder emana de Deus". O PSOL o acusou de ferir o princípio do Estado laico. Mesmo expulso, o Cabo Daciolo não ficou ao deus-dará (perdão pelo trocadilho). Foi-lhe permitido manter o mandato.

A cada semana, pelo menos duas novas igrejas são abertas apenas em São Paulo. A bancada evangélica é hoje o maior "partido" do Congresso: quase 80 parlamentares, mais do que o próprio PT, que tem 70 deputados federais. A religião também invade a vida de 100% da população brasileira através da TV e do rádio. Entre TVs pagas e abertas, as igrejas que são donas de emissoras ou compradoras de horário exibem atualmente mais de 5.000 horas de programação por mês. É o segundo maior conteúdo, só atrás da categoria filmes & séries.

Em rádios AM e FM, então, evangélicos nadam de braçadas. A tecnologia, indiretamente, também trabalha a favor da religião. Hoje há sites e aplicativos que permitem assistir a uma missa ou culto em tempo real, em seu celular. Além disso, pequenas máquinas de cartão de crédito e débito tornam possível ao fiel fazer doações ou pagar o dízimo de forma rápida e segura.

Capital da Fé

A religiosidade se expande no Brasil por um motivo fundamental: o país sempre foi aberto, tolerante e fértil para qualquer religião, não só as cristãs-evangélicas. Na Alemanha, ser fiel da famosa Igreja da Cientologia pode fazer uma pessoa virar alvo de discriminação de vizinhos e colegas de trabalho. 

Seguir e beber o Santo Daime na Indonésia certamente fará o fiel ser condenado à morte. Até poucos anos atrás, quem fosse pego lendo o guru do xamanismo Carlos Castaneda (1925 - 1998) na China ia para a cadeia. Na Rússia, tentaram banir a literatura associada ao Quarto Caminho, de George Ivanovitch Gurdjieff. Seja a velha teosofia ou neoteosofia, nenhuma das duas é bem-vinda em países muçulmanos, como Arábia Saudita e Líbia.

No Brasil, no entanto, todas essas velhas e principalmente as novas religiões, as que surgiram nos últimos 50 anos, não só são bem-vindas como florescem e se espalham mais que aroma de incenso queimando. A Igreja Hillsong tem no astro canadense Justin Bieber um dos seus fiéis convertidos. A australiana Igreja Hillsong, uma das mais atuantes e em expansão da atualidade, anuncia para dezembro a abertura de seu primeiro templo no Brasil, em São Paulo.

Ligada às Assembleias de Deus, a Hillsong tem um forte trabalho social e cultural em todo o Reino Unido. Uma da de suas marcas registradas também é a propagação do louvor e da música gospel de elevada qualidade, que, aliás, é imitada ou reproduzida por artistas de quase todos os países, inclusive o Brasil. 

A chegada da Hillsong é apenas mais uma semente fertilizada nas últimas décadas no país. Desde o final dos anos 90 e início dos anos 2000 várias vertentes evangélicas surgiram, como a Igreja Mundial (de Valdemiro Santiago, banido da Igreja Universal); a Plenitude (de Agenor Duque, dissidente da Mundial), e a Bola Neve (do apóstolo Rina, ex-pregador da Renascer).

Polêmica sem sermão

Mas as novas religiões distantes da fé cristã, judaica, hinduísta ou budista também crescem no país com liberdade. A Igreja da Cientologia, por exemplo, que ficou famosa (e polêmica) graças à presença de ilustres fiéis como Tom Cruise e John Travolta, foi perseguida por décadas em países como EUA, Alemanha e França, acabou liberada em todos.

No Brasil, isso nunca ocorreu. A igreja desembarcou em 1994 com a missionária Lucia Winther e hoje já são três sedes instaladas em São Paulo. Ela atribui as polêmicas ao pouco conhecimento de quem produz conteúdo sobre a igreja. Há inúmeras reportagens, documentários e livros que desabonam a Cientologia. "Você sabe que é sempre notícia ruim que dá cartaz", diz Lucia.

A Cientologia é uma religião prática. Não tem rituais e nem propaga a fé, tampouco a salvação da alma. "Na Cientologia você não precisa acreditar em nada, não ouve sermões. Você analisa e experimenta tudo. Se for verdadeiro para você será", afirma Lucia Winther. 

A igreja defende a evolução do ser humano e se baseia em dois fundamentos: o estudo com afinco à vasta obra de L. Ron Hubbard (1911-1986) e a aplicação de testes chamados de "audições". Nessas audições, o fiel é submetido a uma espécie de sabatina na qual uma "auditora" treinada por anos nos EUA sabatina o fiel com perguntas genéricas e pessoais.

O fiel responde à sabatina monitorado por um aparelho criado por Hubbard, chamado e-metro. Trata-se de um mensurador de energia eletromagnética, que lembra vagamente um detector de mentiras. A reportagem do TAB se submeteu a uma sessão com o e-metro na sede da igreja.

Talvez nenhuma religião esteja em mais sintonia com a era tecnológica do que a cientologia. É preciso pagar para fazer as sessões de audição, e os valores variam. "Nós temos de pagar aluguel, funcionários, treinamento, impressão de livros. Como vamos pagar sem dinheiro?", diz Carmélia Rodrigues, auditora da cientologia. Porém, a igreja não obriga os frequentadores a fazer as audições ou pagamentos.

Outra escola religiosa, ou de filosofia aplicada, que encontrou interesse e terra fértil no Brasil foi a escola do Quarto Caminho. Há vários grupos independentes dessa linha, que se baseia no conhecimento legado por George Ivanovitch Gurdjieff (1866-1949) e P.D Ouspensky (1878-1947).

Um dos maiores grupos do Quarto Caminho é o Instituto Gurdjieff do Brasil, mas há outros menores e bem mais fechados, como a Fellowship of Friends, com sede permanente na Califórnia, EUA, e presente aqui, mas sempre em endereços incertos e mutáveis. 

O Quarto Caminho ficou conhecido do grande público no final dos anos 70, com o filme: "Encontro com Homens Notáveis", de Peter Brook. A obra contava a impressionante saga de Gurdjieff em busca do conhecimento definitivo para evolução humana.

Como a cientologia, também renega a fé. Se baseia em práticas específicas, tanto físicas como "psicológicas" e todas visam a evolução máxima possível ao homem. Uma das bases do Quarto Caminho é que o ser humano está adormecido e vive de forma mecânica do nascimento à morte. A única forma de despertar é por meio da lembrança de si mesmo, uma transição para a interrupção do diálogo interno. Ninguém para de pensar nunca, como todos sabem.

Culto na Selva

Outra igreja que encontrou bom terreno no Brasil, em todos os sentidos, é o Santo Daime, que se baseia na ingestão de uma bebida alcaloide preparada com dois vegetais existentes na Amazônia: a folha de chacrona e o cipó jagube (ou mariri). Há, claro, um líder (padrinho Alfredo), mas o aprendizado e evolução do fiel ocorre de acordo com o que cada um vivencia após ingerir a bebida. Há os mais diversos efeitos, aliás, desde vômitos, sofrimento e penúria, até estados de graça, chamados de miração.

O culto surgiu no início do século 20 por meio do desbravador maranhense Irineu Serra, o Mestre Irineu (1892-1971). Ele disse ter tido contato com um espírito da floresta, identificado por ele como a Virgem Maria, que lhe ensinou o preparo da bebida e cedeu os primeiros hinários.

O Daime tem hoje cerca de 2.000 fiéis fardados no Brasil (são os iniciados oficialmente). Há um número muito maior de frequentadores casuais ou visitantes. A religião também virou um polo de atração de estrangeiros. Segundo o jornalista Oswaldo Guimarães Carvalho, que mora em plena floresta, anualmente cerca de cem visitantes, a maioria oriundos de EUA e Espanha, viajam até a Amazônia para conhecer a igreja sede do daimismo, instalada no Céu do Mapiá.

Ao contrário de outras religiões, a Igreja do Santo Daime não dá ênfase a seus líderes humanos. Trata-se de uma pequena comunidade instalada a cerca de oito horas de barco de Boca do Acre, que, por sua vez, fica a 212 km da capital Rio Branco. É preciso muita fé para chegar lá.

Oswaldo, o Vado, como é conhecido, abandonou São Paulo 15 anos atrás e hoje é um fiel atuante da igreja. "Não sinto falta alguma da cidade." O Daime é permitido no país inclusive pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), categorizado como bebida ritualística.

Deuses Predadores

Mas, se Daime ou a Cientologia são consideradas religiões polêmicas, é porque boa parte das pessoas nunca ouviu falar do nagualismo ou xamanismo pré-colombiano. Isso sim parece coisa de ficção científica. Ou de terror, dependendo da perspectiva de quem conhecer.

O Xamanismo (ou Nagualismo ou Toltequidade) ensina que há dois tipos de seres no universo: os orgânicos e os inorgânicos. Até aí o espiritismo também crê nisso. Orgânicos e inorgânicos são abundantes e quase infinitos e estão presentes em todo o universo (ou seja, há vida orgânica fora da Terra).

Para os xamãs, porém, milhares de anos atrás, em tempos imemoriais, uma dessas "espécies" inorgânicas chegou à Terra atraída pelo brilho da consciência humana. Fizeram da humanidade uma presa.

Esses seres, muito mais antigos que os humanos, têm natureza predatória. Se alimentam da luz da consciência (ou das vibrações). Para ampliar essa luz e dominar os humanos, esses seres fizeram uma manobra espetacular do ponto de vista de um predador: eles nos deram o que conhecemos como a mente.

Eis o motivo, dizem os xamãs, porque os humanos não conseguem nunca interromper os pensamentos, parar de pensar, de brecar o diálogo interno. O motivo é que essa mente histérica e hiperativa não pertence a nós. Ela é uma instalação literalmente alienígena. É possível interromper essa subserviência, dizem os novos videntes toltecas, mas não é nada fácil. Para se livrar desses seres, chamados em espanhol de Voladores (ou voadores, porque lembram uma sombra negra que voa ameaçadora), é preciso começar a seguir três práticas, entre outras tantas.

Quer um xamã na sua vida? Então vá atrás. Nenhum deles irá atrás de você jamais. Antes que você se pergunte: mas por que devemos tentar nos livrar deles? Para os feiticeiros-xamãs, essa é a única forma de o ser humano evoluir e atingir novos níveis de consciência. 

Até lá seremos prisioneiros. Eis a cartilha da libertação: fazer exercícios chamados de tensegridade, que lembram movimentos do Tai Chi Chuan ou Kung Fu, mas foram desenvolvidos para facilitar a reorganização de energia e a interrupção do diálogo interno; a recapitulação, um exercício solitário, no qual devemos lembrar cada momento de nossas vidas; e o "ensonho" (ensueño), que é aprender a nos tornar despertos durante o sonho. Sim, para os xamãs isso é possível, embora desde criança os adultos nos ensinem que "sonhos, sonhos são".

Ou seja, a mente comum está longe de ter sequer qualquer amizade com as práticas xamãnicas. O Xamanismo está presente no Brasil com vários grupos, alguns fechados e outros abertos. Ele ficou conhecido do público só no final dos anos 60 com o livro de estreia de Carlos Castaneda ("A Erva do Diabo"). Um dos grupos mais ativos no país hoje vem de uma cisão do nagualismo dos anos 90 e se chama Being Energy. Trata-se de uma escola criada também por dois ex-discípulos de Castaneda.

A terapeuta, escritora e tradutora Patrícia Aguirre é a representante dessa linha no país. "A Being Energy torna os ensinamentos de Castaneda muito mais acessíveis por usar uma linguagem mais direta e dos nossos tempos. Seus fundadores [o casal Aerin Alexander e Miles Reid] conviveram com Castaneda e receberam instruções diretas de aproximar os ensinamentos Toltecas (nagualismo) das descobertas mais modernas", afirma.

Um dos temas mais polêmicos da obra de Castaneda diz respeito ao sexo. O mestre do escritor exigia dele celibato e isolamento de amigos. "Há confusão sobre o que D. Juan ensinava sobre os relacionamentos, que não se deve casar, fazer sexo. Mas ele se referia à configuração energética apenas de Castaneda. Também tem a ver, claro, com a perda de energia causada pela socialização. Comprometemos a nossa energia quando nos envolvemos de forma inconsciente em relações, e isto inclui o sexo", explica Patrícia.

Se nenhuma das velhas ou novas religiões lhe convenceu, mas despertou curiosidade, não faltam oportunidades para entendê-las melhor em seu discurso de bem-estar, cultura da paz e expansão da consciência. Eventos como a Jornada Being Energy, de 6 a 15 de julho, na Chapada Diamantina, na Bahia, e a 1ª Virada Zen de São Paulo, em 24 e 25 de outubro, estão aí para isso.

Deus os Abençoe! Namastê! Shalom! Amém! 



Ricardo Feltrin - Colunista do UOL. É homem de pouca fé, mas, enxerido, já esteve em quase todas as igrejas citadas neste TAB.



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