quinta-feira, 28 de maio de 2015

Santidade política – Por Marcelo Barros



Depois de longas discussões e atropelos, o Vaticano retomou o processo de canonização de Dom Oscar Romero. 

Nesse último sábado, 23 de maio, na praça principal de El Salvador, a Igreja Católica o proclamou beato, etapa anterior ao reconhecimento oficial de que ele viveu uma santidade que é exemplo para todos. Do mesmo modo, no domingo 03 de maio, com permissão de Roma, a arquidiocese de Olinda e Recife abriu o processo de canonização de Dom Helder Camara.

Conforme a fé cristã, todas as pessoas batizadas são santificadas pela graça divina. Toda pessoa humana é imagem e chamada a ser semelhante a Deus. Então, vivos e falecidos, somos todos santos e santas, não por virtudes que possamos ter, mas pela ação do Espírito Divino em nós. Isso deve ficar claro: o papa ou a Igreja não tornam ninguém santo. 

Deus é que santifica todos os seus filhos e filhas, espalhados pelo mundo, pelos quais Jesus deu a vida (Jo 11, 52). Seja na Igreja Católica, seja nas Igrejas Ortodoxas, canonizar uma pessoa significa apenas declarar que, além de ter sido santificado/a por Deus, aquela pessoa é exemplo de santidade para todo mundo.

Embora todos/as os batizados/as sejam santificados, desde o início, o povo cristão sempre teve o costume de venerar especialmente algumas figuras especiais de irmãos e irmãs falecidos, cujo testemunho de vida pudesse animar o povo no caminho da fé. Assim, foram reconhecidos como exemplos de santidade os apóstolos e mártires. Eram reconhecidos como exemplos de santidade por terem dado a sua vida para que, no mundo, se realize o projeto divino. 

Nos primeiros séculos, os santos eram canonizados por aclamação popular. (Canonizar significa colocar o nome da pessoa no cânon, isso é, na lista dos santos reconhecidos pela Igreja como exemplos de santidade). A partir da Idade Média, surgiu o processo de canonização.

O objetivo da canonização é estimular todo o povo de Deus a percorrer o mesmo caminho de santidade. O processo de canonização analisa a vida e a obra do santo/a em questão. Até agora, se pede o reconhecimento de ao menos três milagres, operados por Deus, através da sua intercessão. 

Hoje, a noção de milagres deve ser revista porque a ciência atual tem uma visão bem mais ampla de cura. Em muitas religiões e tradições espirituais, existem curadores/as e pessoas que fazem milagres. Com todo respeito por essas tradições, nem sempre essas figuras de milagreiros são exemplos de ética e de vida justa.

Também a própria Igreja mudou a forma de compreender a santidade. No decorrer da história, foram canonizados santos guerreiros, conquistadores e até cardeais que, como São Roberto Belarmino, em sua vida, dirigiram tribunais de inquisição e presidiram sessões de tortura contra cristãos considerados hereges. Sem negar que tais pessoas possam ser santos, no sentido de estar em Deus e com Deus, de fato, atualmente, só fundamentalistas e grupos terroristas considerariam tais pessoas como exemplos de santidade. 

Também devemos reconhecer: em outras épocas, o modelo dominante de santidade era de ascetas que mortificavam o corpo. Quase não comiam e pareciam viver fora do mundo real. Por isso, alguns critérios do processo de canonização precisam ser revistos e modificados à luz do Evangelho.

Ao reconhecer figuras como Oscar Romero e Helder Camara como santos, o magistério da Igreja parece propor outro modelo de santidade, baseado principalmente na capacidade de viver a solidariedade humana e defender a vida e a justiça em todas as suas dimensões. 

Cada vez mais, o mundo precisa desse tipo de santidade social e política a serviço do reinado divino no mundo. Em si, Oscar Romero e Helder Camara nem precisariam de canonização. Ambos já são aclamados como exemplos por todo o povo. No entanto, se a hierarquia da Igreja Católica quer reconhecê-los como santos exemplares, Deus queira que seja para que todos nós nos comprometamos a seguir o exemplo e a profecia que eles nos deixaram.

No ano 2000, a Igreja Anglicana colocou no pórtico da Catedral de Westminster, em Londres, figuras de cristãos que os anglicanos consideram santos, mesmo sendo de outras Igrejas. Assim, antes do Vaticano reconhecer o bispo católico Oscar Romero como santo, o papa Bento XVI visitou Londres em 2010. Ao entrar no pórtico da Catedral anglicana, passou pela estátua de Dom Romero, já reconhecido como santo pelos anglicanos.

O que atualmente, no céu, Dom Romero e Dom Helder mais gostariam de ver na terra é toda a Igreja universal seguir as propostas de renovação eclesial feitas pelo Papa Francisco, na linha que eles dois, em seu tempo, já ensaiavam. Certamente, os obstáculos existem, mas, como diz a carta aos hebreus: "Cercados por tais testemunhas, (Romero e Helder Camara) libertemo-nos dos obstáculos e corramos na direção do Cristo” (Hb 12, 1).

Marcelo Barros

Monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É um dos três latino-americanos membros da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte.





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