quinta-feira, 28 de maio de 2015

Quando as religiões e o Estado colidem - Por Filipe d’Avillez



Será que os crimes de honra são uma realidade apenas muçulmana? Uma investigadora canadiana, especialista nas relações entre estado e Igreja, explica porque acha que não. 

Como é que uma religião maioritária infiltra as práticas do dia-a-dia e as instituições, mesmo em países que se consideram seculares, e como é que isso afecta as minorias? Estas são algumas das questões que movem a investigadora canadiana Lori Beaman, da Universidade de Otawa, especialista na relação tantas vezes complexa entre a religião e os estados. 

Em Portugal para participar num seminário de sociologia, Beaman falou com a Renascença sobre algumas das grandes questões que se põem e que por vezes opõem as religiões aos estados. O Canadá, tantas vezes visto como um país extremamente liberal e secular, não é excepção, como se viu há poucos meses quando o Supremo Tribunal se pronunciou sobre uma cidade onde se rezava antes das reuniões camarárias. 

“O tribunal acabou por decidir que a oração representava um uso inapropriado dos recursos do estado e que este não estava a ser neutro. Mas o mais surpreendente foi a resposta. Por todo o país, surgiram aldeias, vilas e cidades que ainda mantinham esta tradição, de rezar antes das reuniões”.

“Ainda por cima, muitos destes sítios insistiram que iam continuar a rezar, isto num país que se considera secular”
Se no Canadá estas situações podem por vezes chegar aos tribunais, nos vizinhos Estados Unidos da América dividem radicalmente a sociedade e têm enorme repercussão mediática e política. Uma diferença de estilo, considera Beaman: 

“As frentes de batalha estão mais endurecidas nos Estados Unidos do que no Canadá. Nós tendemos a navegar e negociar melhor, estamos menos dispostos a expor as nossas crenças religiosas e somos mais reservados do que os americanos. Nos Estados Unidos há mais vontade de confronto e para ver as questões por uma óptica de reivindicação de direitos, e menos para negociar e procurar soluções”. 

Ao longo dos últimos anos grande parte dos choques entre estado e religião têm a ver com o Islão, tanto na Europa como no continente americano. Questões como a licitude de se usar véu islâmico que tape a cara, por exemplo, ou mesmo em relação à prática da poligamia, são motivo de fricção social e legal. 

Mas o problema pode ser apenas cultural, sugere Beaman, que dá o exemplo de um caso que aprofundou. “Há alguns anos houve um caso horrível no Canadá em que várias jovens mulheres e a sua mãe foram assassinados, num crime de honra. Seguiu-se uma discussão que envolveu todo o país”, explica.

“Pela discussão parecia que estes crimes ocorriam apenas numa comunidade, a muçulmana. Mas eu sugeri que olhássemos de forma mais geral para a violência contra as mulheres e que pensássemos em como isso afecta a nossa sociedade. Olhando para os casos de tribunal que envolvem homens que mataram as mulheres, vemos que a linguagem tem tudo a ver com honra. ‘Ela merecia’, ‘o que é que as pessoas iam pensar de mim?’”. 

“Se olharmos bem começamos a ver as semelhanças e deixamos de nos sentir superiores e podemos questionar até que ponto existe mesmo igualdade entre homens e mulheres, como dizemos”, conclui. 

Lori Beaman esteve em Portugal para participar no seminário: “Religião no espaço público: trajectórias de investigação”, que decorreu em Lisboa nos dias 6 e 7 de Maio passados.






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