sábado, 11 de julho de 2015

Curvou-se, tem que rezar – Por Alice Melo



Pesquisadores encontram prisão eclesiástica no subsolo de convento em Alagoas.

A porta pequena forçava o penitente a entrar no cômodo apertado em reverência, curvado. Ele deveria estar consciente de seu ato de suplício. Esta característica sutil presente nas poucas prisões eclesiásticas projetadas em conventos do Brasil Colonial levou pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) a identificar uma destas celas no subsolo do Convento e Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, em Penedo, a 152 km de Maceió.

O espaço foi descoberto durante uma escavação preventiva que antecederia a reforma de instalação de banheiros e de um elevador na edificação do século XVII. Clérigos e pesquisadores ficaram surpresos: é a primeira prisão eclesiástica encontrada no estado.

O convento foi tombado pelo Iphan em 1949 e há cinco anos está fechado para restauro geral. As obras são financiadas pelo próprio Instituto, que contratou a equipe integrada pelo arqueólogo Flávio Moraes, da UFAL. O professor comenta que o cômodo estava sendo utilizado como depósito quando as pesquisas começaram, há um ano.

“Antes das escavações, fizemos um levantamento de edificações franciscanas, e já tínhamos visto que era comum haver um local de clausura de frades. Indícios de que o cômodo seria uma cela eclesiástica eram o piso e a porta baixos, e o fato de ficar próximo à cozinha”.

O frei Alexandre, do Convento Nossa Senhora dos Anjos, diz que não há registro de cumprimento de pena de frades franciscanos no livro de tombo da instituição, e acredita que o cômodo possa ter tido utilidade também de autopenitência. “Pode ter sido uma cela destinada aos religiosos, para o caso de alguém descumprir alguma norma e resolver se punir”.

Foram encontrados no local, sob o piso atual, instrumentos de porcelana, duas panelas de ferro, marca de latrina e até restos de comida. São evidências semelhantes às de outras celas de clausura detectadas em instituições da ordem religiosa erguidas no Nordeste, entre os séculos XVI e XVIII. 

É o caso do Convento Franciscano de Cairu, na Bahia. O restaurador José Dirson Argolo, responsável pelas intervenções neste patrimônio arquitetônico, financiadas pelo projeto Monumenta (2009), diz que encontrou em Cairu vestígios do “sanitário individual na própria cela”.

E reitera que “naquele local eram colocados os padres ou frades que desobedeciam à norma corrente”. Segundo o restaurador, celas com estas características podem ser vistas até hoje no Convento de Santa Teresa (atual Museu de Arte Sacra), abrigo de padres carmelitas em Salvador, local em que também trabalhou.

De acordo com a Superintendência do Iphan de Alagoas, uma passarela de pavimento de vidro, superior ao sítio arqueológico feito no local da antiga prisão de Penedo, será instalada, para que a descoberta “seja explorada museograficamente”. 



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