sábado, 11 de julho de 2015

É divino, maravilhoso: o império do Divino Espírito Santo, o imaginário e as insistências da memória na Cidade de Goiás – Por Alex Mendes




A Cidade de Goiás me inspira a pensá-la. 

Encontramos na cidade e nas suas tradições ecos importantes do que já fomos e do que representávamos, vestígios de fazeres próprios da nossa cultura e saberes de épocas passadas que ainda servem, de forma importante, para nos definir como goianos. Aqui e em nossas outras tantas cidades históricas, encontramos práticas que vêm do passado e invadem o século presente e nos marcam. 

A memória dos vilaboenses está em seu corpo social. Jacques Le Goff, na sua obra Memória e História, citando Pierre Nora, diz que memória coletiva se define como o que fica no passado, no vivido dos grupos, ou que os grupos fazem do passado. 

Essa lição importante do eminente medievalista francês justifica a minha profunda simpatia pela Cidade de Goiás, suas velharias (como muitos dizem), suas invenções do passado e do presente, suas tradições, ora celebradas, ora desprezadas dentro e fora dos limites de sua urbe.

Sem a resistência contra a remanência da memória do passado, e imbuído do desejo de vê-la ativa no presente é que resolvi ler, com certo entusiasmo, a obra Os sentidos da devoção: o Império do Divino na Cidade de Goiás (Séculos XIX e XX). 

O título, muito bem escolhido, dispensa apresentações mais gerais da obra. É um anúncio de que vamos mergulhar num mar de memórias em torno do culto do Divino Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, uma profunda imersão no catolicismo popular vilaboense. Memória é a palavra-chave do livro, como rezam os autores, Clóvis Carvalho Britto, Paulo Brito do Prado e Rafael Lino Rosa na apresentação do livro, intitulada: Memórias do Divino: um convite à entrada no imaginário vilaboense. 

Apresentado por Mary Karasch, uma das maiores autoridades estrangeiras sobre a história brasileira, professora emérita da Universidade de Oakland, nos Estados Unidos, a obra tem o peso do ineditismo e da ousadia desses pesquisadores.

Essa incursão começa com o primeiro passo, entrando na Folia do Divino em torno do Campo de Santana (Praça da República), no Rio de Janeiro. Esse texto, apesar de não tratar das tradições do espaço urbano vilaboense, é um excelente modo de nos introduzir à Festa do Divino em sua plenitude. 

Martha Abreu abre a série de nove ensaios de modo magistral, pois seu texto: História, cultura e poder nas festas do Divino Espírito Santo ensina ao leitor de onde vem essa devoção, como acontecia na capital do império no século XIX, quando já acontecia aqui em Goiás, sincronicamente. 

A realidade carioca e as práticas de Vila Boa se pareciam de modo surpreendente. O texto se aprofunda na economia material e simbólica da festa, mostrando as relações de poder e consumo ali presentes, a existência da devoção, o esforço das autoridades para controlá-la, ações que também se farão presentes na terra dos Goyazes.

A partir da leitura de Martha Abreu, proponho um trajeto diferenciado pela obra. O próximo texto a se ler seria o de Clóvis Britto, Entre mascarados, mouros e cristãos: Por uma memória topográfica das cavalhadas no Campo do João Francisco em Goiás. O ensaio trata da decadência das cavalhadas como parte da Festa do Divino, na Cidade de Goiás, num processo que lembra o descrito pela autora do primeiro texto. Parece ao leitor que as disputas em torno dos poderes em curso na Festa do Divino incluem uma luta clara pelo espaço físico onde acontecem. 

Do Paço da Catedral, passando pelos itinerários mutantes dos bandos precatórios, ao campo das cavalhadas e folguedos, a realização da festa é uma luta de espaços, embate num tabuleiro de xadrez. O lugar ocupado pelos folguedos do Divino, pelo palanque para os espectadores das cavalhadas vilaboenses, assim como o Campo de Santana do Rio de Janeiro, parecia estar numa disputa velada por sua ocupação. 

O Campo do João Francisco foi ocupado de diversas formas até virar bairro da Cidade de Goiás, na segunda metade do século XX. Os registros não apoiam uma afirmação direta que justificasse um boicote à atividade, mas mostram que seu cessar se deu com o tempo, caindo sob o poder do rígido controle sobre as Festas do Divino, vindo da administração pública e da Igreja, sempre impondo a romanização da festa popular, desde o século XIX.

O trajeto da leitura pode agora voltar ao segundo texto, de João Guilherme Curado e Tereza Caroline Lôbo, Divino Goiás: O espaço da festa e a festa no espaço (Séculos XIX e XX), que também trata de itinerários, ocupação do espaço e sua relação com o simbólico da festa na Cidade de Goiás

O foco desse ensaio é nas ações da festa, no comer, beber, rezar, cantar e dançar. Enfoca-se o fluxo dessa festividade sobre o espaço vilaboense. O fluxo (saída dos bandos precatórios) e o refluxo (vinda dos fiéis para os festejos na cidade). O texto também mostra o papel romanizador da Igreja perante os fiéis e os participantes da festa, quaisquer que sejam. 

A romanização se intensifica no século XIX, principalmente porque o texto narra a criação de uma diocese nessas paragens, em 1826. Essa movência da Igreja sobre o espaço vilaboense fez o caminho contrário, quando do episcopado de Dom Eduardo, no final do século dezenove. Esse bispo, por causa de constantes desentendimentos com o Imperador do Divino, transfere a sua residência para Uberaba, marcando um claro retirar-se dos poderes ultramontanos, romanizantes e reguladores da Igreja, restaurados pelo próximo bispo, a partir do século vinte.

O segundo trajeto do livro percorre os textos de Sônia Maria de Magalhães, Ana Carolina Eiras Coelho Soares, Paulo Brito do Prado, Clóvis Carvalho Britto e Carlos Brandão. Nesses ensaios, o foco é na antropologia das diferenças e exclusões da Festa do Divino: mulheres, crianças e negros são o foco dos trabalhos dos autores. O primeiro texto desse percurso, o terceiro do livro, de Sônia Maria de Magalhães e Ana Carolina Eiras Coelho Soares, Festa do Divino em Goiás: Mulheres, relações de gênero, lembranças, festa e comida, trata da figura da mulher e seu papel na devoção. Detentoras do saber fazer, organizadoras principais, trabalhavam em prol da devoção ao Divino e pelo prestígio dos donos da casa, seus maridos, pais e outros homens. O texto mostra a dimensão da ação feminina, passando pelas memórias de Ofélia Monteiro, Anna Joaquina Marques e Cora Coralina.

O texto de Paulo Brito do Prado: As muitas faces do Espírito Santo: gênero, devoção e silêncios na cidade de Goiás (Séculos XIX e XX), baseia-se na memória das testemunhas históricas da Festa do Divino ao tratar do papel feminino, relegado a segundo plano pela Igreja e pelas instituições sociais no século XIX. A ação das mulheres era sempre posta sob silêncios e interdições nas celebrações católicas. Nesse ínterim, a Festa do Divino era um importante espaço de exercício de resistência. 

O texto também trata da romanização e dos conflitos religiosos durante a Festa do Divino, tendo como ponto alto o conflito entre Dom Eduardo, bispo de Goiás e Eduardo Pereira de Abreu, festeiro do Divino. Relações aparentemente pouco importantes, mas que se revelam cruciais no exercício do poder religioso foram mostradas nesse capítulo. O resultado do embate entre os Eduardos certamente foi a prevalência da romanização sobre os costumes populares. Nessa esteira, está também a restrição ou proibição dos festejos dos negros.

Clovis Carvalho Britto escreve sobre Benedicto D’Abadia, em Dos “batuques dos pretos” aos grilhões do silêncio: Benedicto D’Abadia e a festa do Divino Espírito Santo dos Meninos em Goiás (Século XIX), ex-escravo ativista religioso e cultural do século XIX, que organizou a festa do Espírito Santo dos Meninos. Clovis Britto, a partir da história desse ilustre desconhecido, apagado dos registros oficiais, prova que a Festa do Divino era uma oportunidade única de protagonismo cultural, religioso e econômico da população escravizada ou marginalizada. 

As descobertas do pesquisador confirmam a tese de que festejos do Rosário e de São Benedito faziam parte dos festejos do Divino, mostrando claramente quais eram as festas de pretos e brancos na cidade, à moda do que Carlos Brandão teria feito em Pirenópolis, GO. 

Os apagamentos históricos sobre Benedicto deixaram rastros embaixo de camadas arqueológicas de dizeres depositados que revelam fatos interessantíssimo, entre os quais escolho ressaltar a relação entre a festa do Espírito Santo dos Meninos e Dom Pedro II, infante, tendo assumido o trono ainda adolescente, numa relação interessante em que se repete no sagrado o que acontece no profano, assim na Terra como no Céu.

Carlos Brandão retoma o seu estudo a respeito das congadas vilaboenses, no seu ensaio A dança dos Congos da Cidade de Goiás. O texto narra e analisa a decadência da dança dos Congos e Tapuios, sob o impacto da modernidade. 

A dança narra uma espécie de auto de fé, em que as lutas entre negros e seus inimigos, com a prevalência dos cristãos ao final, faladas reconfigurações identitárias e da permanência da segregação discriminatória dos negros, aos quais sobram os lugares de escravos ou marginalizados na sociedade. Os negros sabiam que seu papel no mundo cristianizado era de inferioridade e submissão, por isso o exercício da resistência pela dança popular, pela monumental Entrada da Rainha, talvez Oxum, se amarela de ouro, talvez Yemanjá, se coberta de azul, talvez Yansã, se de carmim e armas à mão, talvez Nanã, se coberta de flores e púrpura. Não sabemos. Saberemos um dia?

Os textos de Rafael Lino Rosa e Fernando Cupertino de Barros se integram de modo interessante à obra toda. Podem ser lidos em sua singularidade temática, em separado ou integradamente.

A análise de Cupertino de Barros da musicalidade da Festa do Divino no texto: A música no ciclo da festa de Pentecostes na Cidade de Goiás mostra suas décadas de pesquisa e trabalho sobre o tema, que perpassa a prática musical da festa, uma vez que o autor colaborou com a execução dos coros cantados e da parte instrumental na cidade. 

O músico mostra a presença da música nas novenas e na serenata do Divino Espírito Santo, com ênfase no estudo da letra e melodia do Hino ao Divino Espírito Santo, de autoria de Pio Joaquim Marques e José Iria Xavier Serradourada, o papel da música da liturgia das partes menos romanas da celebração, como a serenata e a ascenção do mastro, no largo da Catedral. 

O autor ainda faz jus à história musical daqueles que colaboraram com a festa, para a manutenção de suas músicas, parte da economia festiva local, assim como as comidas, as práticas litúrgicas, paralitúrgicas e os itinerários da folia.

O texto de Rafael Lino Rosa, O Espírito Sopra onde quer: De Ruah do Deserto ao Divino da Cidade de Goiás, manifestações do Carisma, é único, por se configurar como um tratado teológico profundo sobre pneumatologia bíblica judaico-cristã ocidental, feito com esmero e pesquisa. Lançando mão da literatura sagrada e esotérica à mão, o autor prova que o mesmo Espírito do Deserto, errante, que inflou do primeiro ao último profeta, anima, fortalece e faz com que os bandos precatórios da Folia do Divino percorram cidade e campo por devoção e fé, assim como Ruah impeliu os judeus pelo Sinai, até Canaã. 

Acima de tudo, o texto de Rafael mostra a impossibilidade de se conter o impulso de Ruah dentro de moldes impositivos das instituições humanas. É da pneumatologia escatológica que o autor retira categorias de análise que permitem esclarecer os tabus e histórias fantásticas do imaginário popular sobre o Espírito Santo. Há toda uma estrutura do medo do Espírito e sua condenação cabal, biblicamente embasada pelas advertências dos evangelhos, de que todo pecado será perdoado, menos a blasfêmia, a negação, a apostasia direcionada ao Espírito. 

As análises de Rafael Lino Rosa não se limitam, no entanto, à teologia. O Divino Espírito Santo toma uma importante força no seu texto, como uma divindade que, para além do Pai e do Filho, anima, vivifica, transforma e distribui entre todos os prazeres e os frutos da terra. 

Aparecendo no Domingo de Páscoa, o Divino eclipsa a figura central do cristianismo, relegando a um plano de quase esquecimento a figura de Cristo, de Deus Pai e de outras devoções. O mariano mês de maio passa despercebido, mesmo que pelas novenas, ainda que nelas se reze a Maria e a Jesus (ave-marias e credo) e Deus (pai-nosso e credo), um Deus sem corpo, feito de ar, e que se manifestou em Cristo como uma Pomba mística, pregando um evangelho de alegria, copos cheios e comida farta, sacia a fome material e espiritual de pobres e ricos há trezentos anos, pelo menos, nos sertões de Goiás. 

A celebração de Corpus Christi parece mais ser o final da Estação do Divino, com a posse do Imperador, passagem das insígnias, minorando Cristo. Tão importante quanto a existência de um outono Divinal, maravilhoso, farto em luzes, cor vermelha e víveres, é a produção da identidade dos vilaboenses, de sua cultura, de seu sentimento de pertença.

Essa obra, talvez, seja o que se pode ler de mais rico a respeito da religiosidade goiana, atualmente. Nenhuma obra analisa um fenômeno religioso de tamanha duração e com essa tal intensidade. Mais do que uma história da religiosidade goiana, o texto é sobre a formação da identidade, da circulação de bens simbólicos, poderes pelo local, passa também pelo processo de civilização e subjetivização impostas pela Igreja Romana. 

A Festa do Divino era a mesa em que as negociações em torno do simbólico e material estavam em jogo. Talvez o Campo do João Francisco seja o exemplo topográfico mais claro das movências dos significados, símbolos e poderes da Festa sobre a Cidade. 

O desaparecimento da sua função de campo das cavalhadas, a demanda do espaço para a urbanização e utilização de outras formas também atende à proposta da extinção de poderes religiosos laicos e o recorte mais minucioso da ação da Igreja. Uma luta que se travou no Campo do João Francisco e o fechou para outras batalhas simbólicas, tendo todos ganhado e perdido, deixando à caduquice da memória a lembrança dos idos de outrora. 

A permanência da Festa do Divino, mesmo que tenha sofrido extirpações religiosas e culturais é um fenômeno notório. É essa síntese antropofágica, rapsódica, absorvente. A mesma fome com que os foliões atracam os doces, as comidas e as bebidas da Festa, também deglutem, digerem e metabolizam a mensagem cristã, impelidos pelo desejo político (soprado por Ruah?) de terem espaço de ação, fartura, sociabilidade e vivência comunitária.

(Alex Mendes, licenciado em Letras: Português e Inglês, mestre em Letras e linguística pela Universidade Federal de Goiás, pesquisador na área da Análise de Discurso, é também professor da Rede Estadual de Educação, morador recente da Cidade de Goiás e apaixonado por essa terra, suas riquezas materiais e imateriais).




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