domingo, 26 de julho de 2015

Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais quer tornar a benzeção patrimônio imaterial - Por Miriam Santos



A prática tem origem em várias religiões e é considerada um dom entre os benzedores.

"Eu benzo a sua casa com arruda e ar de cheirar guiné
Quem tiver olho não há de enxergar ocê
Eu benzo ocê contra depressão, contra neura
Chego a sua espinhela no lugar
Divino Pai Eterno vai dar ocê tudo de bão
Saúde, paz, tranquilidade e união..."


Em Minas Gerais, a benzeção é considerada um dom que passa de geração em geração. A tradição é tão forte que motivou um inventário do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico. 

O Iepha quer registrar o ato de benzer como patrimônio imaterial do estado. O instituto pretende identificar o número de benzedores, as formas de benzer e, sobretudo, perpetuar a simbologia deste ofício, como explica o gerente do Iepha, Luiz Gustavo Mundim.

"Quando a gente pesquisa um bem cultural, a intenção é que gente consiga fazer com que as condições de existência para que ele aconteça se reproduzam. Esses valores culturais são muito importantes para a identidade desses grupos e da própria população de Minas Gerais".

Dor de cabeça, energias ruins, dificuldade amorosa, doença de pele, tudo se desfaz em meio à fé, incorporada na voz de Mário Braz da Luz, que pede ajuda aos santos para afastar o mal.

"Tem gente do olho ruim, né? Eu tenho que gastar três dias para benzer para tirar. Passa tudo pra mim, Nossa Senhora é que tira. Antes de eu benzer, eu peço a ela: me livra de todo o mal".

Com terço nas mãos, sentado num banco de madeira nos fundos da casa, Mário invoca bençãos divinas sobre aqueles que pedem força e proteção espiritual. A benção pode ser dada através de amuleto, planta, carvão, medalha e demais objetos que variam de acordo com a necessidade da pessoa. Aos 82 anos, 35 deles dedicados à prática de benzedor, Mário aprendeu tudo com a irmã, também benzedora.

"Graças a Deus, a minha fé tem derrubado montanha". Mário trabalha das 8h às 17h e atende, em média, 40 pessoas por dia. O industriário Abel Beneveduto traz a filha Valentina de 2 anos com frequência para receber as bençãos de Mário. Ele diz que as orações fortalecem a alma.

"Isso acaba fazendo com que a gente acredite numa força de transição para a gente se sentir melhor no dia a dia através de uma oração que a gente acredita com mais verdade, com mais vigor".

O filósofo e professor de Ciências da Religião da PUC Minas, Stephen Simim, é estudioso dessa tradição. Segundo ele, o ato de benzer envolve saberes das religiosidades europeia, indígena e africana. O mistério e as plantas medicinais estão sempre presentes nos rituais, como explica Simim.

"Só a benzeção é uma síntese disso: um conhecimento específico do uso de ervas medicinais aliado a essa prática da experiência espiritual"Uma experiência que, segundo aqueles que acreditam, traz paz espiritual.







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