quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Política, Religião, Família – Por Padre Belmiro



“A religião é de importância estratégica capital na política do planeta”, assim conclui o relatório da Fundação Churchill, divulgado em fins de Outubro. Sendo assim, interroga-se Liz Dodd, “porque é que tantos chefes políticos são religiosamente analfabetos”?

Isto, que se verifica na Europa Ocidental, não tem nada a ver com o resto do mundo, que se vai tornando cada vez mais religioso. Segundo os dados de que dispomos, referentes a 2010, uma fé religiosa é confessada por 84,6% da população mundial. 

As maiores religiões, nos últimos 30 a 40 anos, não só não diminuíram em números, mas aumentaram consideravelmente: os cristãos passaram de 1,2 para 2,1 mil milhões, os muçulmanos de 554 milhões para 1.300 milhões.

Nesta sociedade, de secularismo exclusivo, como Deus foi expulso da praça pública e da linguagem oficial, de igual modo a pessoa foi expulsa do indivíduo. O analfabetismo religioso é também de ordem filosófica e antropológica.

E a família? Como é a célula fundamental da sociedade, merece um sério tratamento da parte dos políticos. À maneira do que fez a Igreja, no Sínodo sobre a família. Mary McAleese, que foi presidente da Irlanda, declarou que os mentores e chefes políticos, para seu próprio bem, não podem ignorar a religião, sobretudo num mundo em que as tensões do Médio Oriente explodem em Nova Iorque, Madrid, Londres e Paris. O mesmo vale para a família.

O documento final, apresentado em 94 parágrafos, não fornece respostas de ’sim’ ou ’não’ para os temas mais controversos, como a comunhão aos divorciados e os homossexuais. O Sínodo não impõe decisões ao Papa, a sua função é prestar-lhe conselho. Por isso, o Sínodo começa agora, no vasto campo de manobras do Papa Francisco. Espera-se um documento seu para o Ano Jubilar da Misericórdia, cujo início é no próximo dia 8 de Dezembro.

Apesar de posições inconciliáveis de vários bispos, a acta final foi aprovada pela maioria de dois terços. A Igreja mudou, como se exprimiu o cardeal Danneels, recordando o anterior sínodo sobre a família, em 1980.

Não é um documento definitivo, apenas uma imagem, um instantâneo da Igreja a caminho. Mais um gesto profético deste bravo Bispo de Roma. Numa intervenção durante o processo, Francisco afirmou que a Igreja se deve tornar sinodal, isto é, à escuta do povo. 

O que se verifica mesmo nos pontos mais debatidos, como a comunhão aos divorciados. Os baptizados, divorciados e casados de novo pelo civil que sejam integrados na comunidade cristã, por todos os meios possíveis, procurando, é claro, evitar o escândalo. Baptizados, são nossos irmãos e irmãs, habitados pelos dons e os carismas do Espírito Santo.

Da homossexualidade, diz o documento que cada pessoa deve ser tratada e acolhida, sem ter em conta a orientação sexual, com respeito pela sua dignidade, procurando evitar “todo o sinal de injusta discriminação”.

A coabitação expandiu-se, em parte devido ao sentimento geral contra as instituições e responsabilidades definitivas, mas também porque os jovens decidiram esperar pelo tempo em que alcancem a segurança material, e pessoal, com trabalho e salário fixos. Nalguns países, a coabitação resulta da pobreza de muitos, que consideram o casamento como um luxo social inacessível para eles.

Que estas situações sejam encaradas de maneira construtiva, preconiza o documento, transformando-as em oportunidades na caminhada para a plenitude do matrimónio e da família. Também nos merece atenção a importância reconhecida ao foro interior, a consciência de cada um.

O acompanhamento eclesial, por exemplo de um sacerdote, deve ajudar os fiéis a formar um estado de consciência da sua situação diante de Deus. E há reflexões que podemos acrescentar. Por exemplo, onde está verdadeiramente o sacramento do matrimónio: na troca do consentimento ou na comunhão consumada de vida e amor? 

Os sinais sacramentais, pão e vinho consagrados, se deixarem de ser realmente comida e bebida, deixam de ser a realidade da presença eucarística. Não se poderá dizer a mesma coisa do matrimónio, se, por culpa ou fraqueza humana, a comunhão de amor e vida cessarem de existir?




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