quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dicionário conta história da Teologia da Libertação – Por Cristina Fontenele



Escrito quase na totalidade por teólogos latino-americanos, está em finalização o Dicionário Histórico da Teologia da Libertação (TdL), que será lançado para o mundo francófono (Europa e Canadá), pela editora belga Lessius, com o apoio de professores eméritos.

Com previsão para setembro do próximo ano, a obra será produzida nas versões francês, castelhano, português e inglês. O trabalho, que já dura três anos, tem o objetivo de apresentar um panorama da evolução da TdL desde o seu surgimento, na época do Concílio Vaticano II [1965], até os dias atuais.

Luis Martínez, teólogo chileno que vive em Bruxelas, na Bélgica, e um dos coordenadores do projeto, explica que o dicionário está organizado em três grandes blocos. A primeira parte desenvolve 10 temas principais da TdL, como, por exemplo, o tema: Libertação, que foi escrito por Leonardo Boff; Cristologia, pelo teólogo Jorge Costadoat, de Santiago [Chile]; e comunidades de base, por Socorro Martínez, da Ameríndia.

"A Gutierrez [Gustavo Gutierrez, considerado o pai da TdL] não pedimos nada, o deixamos tranquilo, mas ele está muito presente em todo o dicionário. Há uma nota bibliográfica, a maior, sobre ele, assim como a de Boff”.

Martínez, por sua vez, escreveu uma nota sobre o sacerdote chileno Ronaldo Muñoz. "Ele foi meu professor, estudamos Teologia e fundamos juntos a Comunidade Teológica do Sul. Em geral, quem escreveu sobre alguém é porque o conhecia”.

Em um segundo bloco, o livro faz um desenvolvimento geográfico da TdL por país e, na terceira parte, são apresentadas em torno de 150 biografias, entre bispos, teólogos, mártires e laicos, que acompanharam a TdL e a mantiveram com sua prática.

Este último bloco é precedido de uma introdução histórica, com os obstáculos, as resistências e as conquistas alcançadas pela TdL. Martínez relata que praticamente todos os teólogos presentes no II Congresso de Teologia da Ameríndia, realizado em Belo Horizonte, em Outubro deste ano, escreveram algum verbete para o dicionário.

"90% da obra foi escrita por teólogos latino-americanos, que falam sobre os próprios colegas e sua realidade. É como escutar uma família falando dela mesma”.

Com a chegada de Papa Francisco, Martínez destaca que a Teologia da Libertação volta a ser "posta sobre a mesa”, quando era creditada por muitos como uma Teologia "morta”. A principal expectativa com o lançamento do Dicionário é, de acordo com o teólogo, apresentar ao resto do mundo um caminho sólido percorrido pela América Latina, a partir da grande recepção do Concílio, sobretudo, à Igreja europeia, que enfrenta muitas dificuldades e está "quase morrendo”, "agônica”.

Segundo Martínez, a Europa é muito etnocêntrica e acredita que não há nada o que aprender com o resto do mundo. "Então, não quisemos entrar em um debate de ideias, mas mostramos os fatos, que são irrefutáveis”, diz o teólogo sobre as discussões em torno do Dicionário e da história da TdL. Para ele, a ideia do projeto foi proporcionar um diálogo entre os teólogos latino-americanos, que contam sua própria história a irmãos de outros lugares.

Nesse contexto, a figura do Papa Francisco, que, segundo Martínez, não é um teólogo da Libertação, mas um fruto também da tradição latino-americana, pode dar um novo impulso à Igreja, que se vê, agora, revitalizada. Com "vontade de sair” e dizer aos "poderosos” que o caminho por eles tomado não surte efeito, sendo necessário salvar a Terra, salvar os pobres.

O teólogo destaca que a América Latina é viva e cheia de esperança, com projetos, e gente que luta, apesar das dificuldades inegáveis em nível social e também de Igreja. Em contraponto, a África está envolta em guerras e desolação, enquanto a Europa tem se fechado em sua riqueza, como uma fortaleza. Dessa forma, Martínez percebe que a América Latina pode ser um convite a se acreditar que um outro mundo é, de fato, possível.

Cristina Fontenele - Repórter- E-mail: cristina@adital.com.br e crisfonte@hotmail.com






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