sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Mensagem do papa não combina com estilo de vida dos bispos – Por Peter Wensierski

No Vaticano, um papa com os pés no chão vem pregando humildade e modéstia. Muitos bispos na Alemanha, no entanto, estão tendo dificuldades em adotar um estilo de vida mais austero.

Na semana passada, Rudolf Voderholzer, 54, o bispo da cidade bávara de Regensburg e um dos líderes mais jovens da Igreja Católica na Alemanha, foi cobrado pelo próprio papa no Vaticano. Em uma repreensão ao bispo alemão e a outros participantes de um seminário para novos bispos em Roma, Francisco disse: 

"Fique perto das pessoas e viva como você prega. Esteja sempre com o seu rebanho, não sucumba ao carreirismo e se pergunte se você está realmente fazendo aquilo que prega".

Esta é uma mensagem nova para os príncipes da Igreja alemã. Muitos deles cultivam há muito um estilo de vida orientado para dogmas rígidos, prestígio e uma carreira dentro da Igreja, da mesma forma que o ex-papa Bento 16. Mas agora que o seu sucessor chega às reuniões em um carro velho, houve uma mudança fundamental. 

A lealdade para com o papa está sendo completamente redefinida, e não apenas em Regensburg, onde o predecessor de Voderholzer, Gerhard Ludwig Müller, devoto fervoroso do papa emérito Bento 16, alienou muitos católicos romanos. 

Nesta semana, os bispos alemães terão a oportunidade de discutir o que a mudança no Vaticano significa para eles ao se reunirem para a conferência anual de bispos, na cidade alemã de Fulda. Há muito tempo não havia tanta incerteza dentro de suas fileiras.

Fãs conservadores de Bento 16, liderados pelo cardeal de Colônia, Joachim Meisner, veem a sua influência diminuindo, enquanto muito do que antes era valioso e importante para eles agora é desabonado. 

Por outro lado, o campo reformista, há anos enfraquecido, ainda tem de reunir suas forças. Bento 16 e seu predecessor, João Paulo 2º, suprimiram sistematicamente as vozes de mente aberta dentro do clero alemão. Agora, os sacerdotes liberais restantes estão gradualmente saindo da toca.

O papamóvel é um Fiat velho

Por enquanto, as principais questões teológicas não estão abertas ao debate. No papado de Francisco, a mudança começa na vida cotidiana. "Dói-me quando vejo um padre ou uma freira com o modelo de carro mais recente. Vocês não podem fazer isso", disse ele aos jovens padres e freiras. 

"Os carros são necessários. Mas usem um tipo mais humilde. Pensem em quantas crianças morrem de fome e direcionem essa poupança a elas".

Enquanto o novo papa viajou em um Fiat velho para visitar refugiados africanos na ilha mediterrânea de Lampedusa, Meisner anda de motorista em um BMW Série 7 em torno de sua arquidiocese de Colônia, que tem fama de ser especialmente rica. A maior parte dos bispos alemães, de Munique a Würzburg e Osnabrück, no Norte, usa sedãs de luxo, de preferência das marcas Audi, BMW ou Mercedes.

Isso fez com que a organização ambiental alemã criticasse os líderes da Igreja Católica do país por serem "super-motorizados" e, portanto, responsáveis por altas emissões de poluentes. Até mesmo a revista de automóveis "Auto Bild" opinou que, ao usarem estes veículos, os bispos ajudam a "reforçar a aceitação social de carros de luxo".

E Francisco não está parando na questão dos carros. Os dignitários da Igreja também foram forçados a reconhecer outra mensagem de Roma que a felicidade cristã não depende de possuir o mais recente smartphone ou de viver no luxo. Em vez de residir no Palácio Apostólico, o papa se mudou permanentemente para um quarto comum da pousada de Santa Marta, em Roma.

Na Alemanha, por outro lado, muitos bispos, aparentemente, não entraram em acordo com a insistência de Francisco em dar um exemplo de pobreza. A nova residência cara de Franz-Peter Tebartz-van Elst, o bispo de Limburg, no Oeste da Alemanha, é um exemplo especialmente notável da ostentação, ou pelo menos do apego acentuado ao prestígio dos líderes da Igreja Católica no país.

Testemunho do poder histórico 

O cardeal de Munique, Reinhard Marx, por exemplo, vive em três quartos privados no Palácio Holnstein, a residência tradicional de estilo rococó do Arcebispo de Munique, no centro da cidade, que acaba de passar por uma reforma que custou milhões. 

A Igreja investiu cerca de 2 milhões de euros (em torno de R$ 6 milhões) no palácio, e o proprietário, o Estado da Baviera, doou outros 6,5 milhões de euros. Um dos quadros pendurados nos quartos decorados com afrescos e lustres requintados é do próprio Marx. 

Como se isso não bastasse, a arquidiocese também gastou cerca de 10 milhões de euros em uma mansão em Roma, que agora serve como uma "casa de hóspedes". Em outras cidades alemãs, como Regensburg, Bamberg e Fulda, as residências episcopais ainda são um testemunho do poder histórico de seus moradores.

Exemplos contrários são raros. O cardeal de Berlim, Rainer Maria Woelki, assumiu o cargo com a reputação de ser ultraconservador, mas depois ele procurou o diálogo com gays e lésbicas e se reuniu com imigrantes que pediam asilo. Ele mora em um apartamento no sótão, no bairro de Wedding, em Berlim, que tem uma grande população de imigrantes. 

Ele comemorou o Natal na cozinha comunitária dos franciscanos e muitas vezes ele prefere a bicicleta ao carro oficial, um BMW. Seu colega da cidade de Freiburg, o arcebispo Robert Zollitsch, mora em uma casa modesta de operário.

Nesta semana, Zollitsch, 75, presidirá a Conferência Episcopal Alemã em Fulda pela segunda a última vez. Um novo presidente será eleito na próxima conferência, em fevereiro de 2014, quando as cidades de Colônia, Freiburg, Erfurt e Passau também devem receber novos bispos. A mudança de gerações é iminente, mas há algumas opções.

A mudança de curso em Roma pode confundir os principais católicos. Por exemplo, Marx, o arcebispo de Munique e Freising, um homem com opiniões moderadas e uma organização poderosa, tinha sido considerado forte candidato a suceder Zollitsch. Mas agora, o mais modesto Woelki, da arquidiocese empobrecida de Berlim, é considerado um candidato mais provável para o cargo importante.

Tocar os corações das pessoas

Francisco está constantemente distribuindo conselhos aos bispos, novos e antigos. "A primeira reforma deve ser de atitudes", disse o papa em uma entrevista à revista jesuíta "Civiltà Cattolica". 

O Santo Padre quer que os bispos mudem seu foco para longe de si mesmos, na direção dos fiéis católicos. Ele quer que eles corram riscos, quebrem as regras, saiam de suas "zonas de conforto" e vão em direção às pessoas, tocando seus corações, seja nas paróquias, prisões ou dormitórios para imigrantes que pedem asilo. Todas estas coisas são difíceis de fazer em vestes esplêndidas e BMWs, ou por trás das paredes de residências palacianas.

Em geral, o papa Francisco está alertando os sacerdotes para que não se recolham às suas torres de marfim, um perigo muito real sob Bento 16. "Esta Igreja... é a casa de todos, não é uma pequena capela que só pode conter um pequeno grupo de pessoas selecionadas", disse ele. "Nós não devemos reduzir o colo da igreja universal a um ninho protegendo nossa mediocridade".

Nos últimos anos, a tendência em muitas partes da Alemanha tem sido no sentido oposto. Avisos constantes de Joseph Ratzinger contra o "relativismo" da vida moderna incentivou um recolhimento em nichos e promoveu uma Igreja Católica pequena, pura e refinada, um deleite para os fundamentalistas.

A controversa Sociedade de São Pio 5º foi readmitida, e devotos ultraconservadores de Bento 16 celebraram o retorno da missa em latim, murmurada pelo sacerdote de costas para a congregação, como um "escândalo da fé" benéfico. Os críticos e reformistas, por outro lado, foram ignorados, deixados de lado ou ejetados.

Decepcionados com a Igreja oficial na Alemanha, muitos leigos estão depositando suas esperanças no novo homem em Roma. Alois Glück, presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, gostaria de ver Francisco exercer mais influência sobre os bispos alemães. Ele está pedindo mais coragem e um fim ao silêncio, especialmente "em questões de ética sexual". 

De acordo com Glück, a esmagadora maioria dos católicos é fortemente a favor das mudanças. "Ninguém pode alegar mais que essas questões urgentes são apenas de interesse de grupos marginais", diz Glück. "Elas chegaram ao centro da Igreja".

Mudança na natureza do discurso

O espírito de otimismo entre os fiéis comuns cresceu com praticamente cada gesto vindo do novo papa. Em sua entrevista à "Civiltà Cattolica", publicada na semana passada, 

Francisco deixou claro que está mudando fundamentalmente a natureza do discurso na Igreja CatólicaDe acordo com Francisco, a Igreja não deve centrar-se constantemente nas controvérsias que cercam gays, mulheres e celibato. 

"Nós não podemos insistir somente nas questões relacionadas ao aborto, o casamento gay e o uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível", disse ele. 

"Os ensinamentos dogmáticos e morais da Igreja não são todos equivalentes. O ministério pastoral da Igreja não pode ser obcecado com a transmissão de uma variedade incoerente de doutrinas a serem impostas insistentemente".

Para o padre jesuíta Klaus Mertes, que, como diretor da escola Canisius de Berlim, desencadeou o escândalo de abuso na Alemanha, a posição de seu companheiro jesuíta e agora papa é revolucionária, mesmo que Francisco não tenha abandonado qualquer um dos princípios rígidos da Igreja.

"Se houver uma mudança nas práticas da Igreja, bem como no modo como interagimos uns com os outros e com os paroquianos, a teoria também vai mudar no final, e não o contrário". Muitos compartilham a sua esperança.

Em seus sermões, os bispos alemães pediram repetidamente aos pastores e paroquianos que aceitassem a doutrina da Igreja, sem questionamento. "Obediência é amor e não compulsão", disse o bispo de Limburg, Tebartz-van Elst, em uma cerimônia de ordenação de novos sacerdotes.


Francisco, como jesuíta, foi ensinado a ser obediente e, como papa, tem o direito de exigir obediência de todos os católicos, mas ironicamente, é justamente ele quem agora está rompendo com esta doutrina. "As pessoas se cansam do autoritarismo", disse ele em sua entrevista histórica na semana passada. 

"Eu vivi um momento de grande crise interior" apenas para reconhecer que foi "a minha maneira autoritária e rápida de tomar decisões que me levou a ter sérios problemas e ser acusado de ultraconservadorismo", observou.




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