sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Teólogo Pablo Richard: A Teologia da Libertação pode recuperar a memória de seus mártires – Por José Eduardo Mora

O encontro do 11 de Setembro entre Jorge Bergoglio e Gustavo Gutiérrez, criador da Teologia da Libertação (TdL), no Vaticano, desatou todo tipo de afirmações e contrainformações sobre se esse era um gesto inequívoco do Papa para com um movimento marginalizado e perseguido pela Cúria Romana nos últimos 40 anos.

A atenção da mídia, no caso a concedida pelo L’Obsservatore Romano ao livro "De parte de los pobres. Teología de la Liberación. Teoría de la Iglesia”,de Gutiérrez, bem como ao próprio autor, foram as chispas que acabaram de acender a incomodidade do setor mais conservador do clero, que considera inadmissível que uma teologia com influência marxista coabite dentro da Igreja.

Pablo Richard (nascido no Chile, em 1939), doutor em teologia e sociologia, e um dos estudiosos mais profundos da TdL na América Latina, e membro do Departamento Ecumênico de Investigações (DEI), analisa nesta entrevista as portas que, atualmente, se abrem para esta teologia, que, em seu momento foi repreendida duramente por João Paulo II, e desacreditada por Joseph Ratzinger.

Autor de livros como: Fuerza ética y espiritual de la Teología de la Liberación en el contexto actual de la globalización (2004); La Iglesia de los pobres en América Central, em coautoría com Guillermo Meléndez (1984); La fuerza espiritual de la iglesia de los pobres (1987) e Diez palabras clave sobre la iglesia en América Latina, entre outros textos, Richard ressalta que com o Papa Francisco pode acontecer um renascimento e uma recuperação da memória de 40 anos da TdL e que um dos gestos transcendentais poderia ser a canonização de Dom Óscar Arnulfo Romero, assassinado em San Salvador enquanto celebrava a missa, no dia 24 de Março de 1980.

Depois de longos anos de silêncio a que foi submetida pelo poder de Roma, a Teologia da Libertação (TdL) volta a ser tema dentro da Igreja. Que primeiras interpretações podem ser extraídas de dita conjuntura?

- É a possibilidade de recuperar a memória do passado e a possibilidade de abrir um fórum público para avaliar os últimos 40 anos da TdL. O papa Francisco abre esse espaço de reflexão crítica, que também nos permite recuperar a memória de nossos mártires, que deram sua vida pelo Evangelho.

As denúncias da influência marxista na TdL legitimaram em grande medida a perseguição de milhares de cristãos, leigos e sacerdotes, muitos assassinados por seu testemunho evangélico, não por razões ideológicas.

Um fato que transformaria a memória histórica desses 40 anos seria que o papa Francisco canonizasse a Dom Óscar Romero, arcebispo, profeta e mártir de San Salvador, assassinado por anunciar o Evangelho, no dia 24 de março de 1980.

Estamos em presença de uma oportunidade transcendental para a Teologia da Libertação, no sentido de que pode acontecer um ressurgimento, depois de que esta opção fosse "demonizada” e combatida fortemente pelo Vaticano?

− Creio que o papa Francisco nos está dando a grande oportunidade de que a TdL saia à luz pública para provocar um debate aberto sobre ela. O encontro do papa Francisco com o padre Gustavo Gutiérrez, principal inspirador da TdL nesses 40 anos de sua existência, como também o encontro com o arcebispo e teólogo Herdhard Müller, secretário da Congregação para a Doutrina da fé, são signos de uma mudança profundo e radical da reflexão teológica na era que agora se abre.

De João Paulo II a Jorge Bergoglio, que principais mudanças experimentou, em seu interior, a Teologia da Libertação em tão largo período?

− A TdL não é uma doutrina ou um dogma; mas, uma nova maneira de fazer teologia. O primeiro é a prática de libertação, a reflexão teológica é o "ato segundo”. A evolução da TdL não é uma evolução teórica. O que vai mudando é a prática da libertação. Em cada época surge um novo sujeito, uma consciência crítica, um projeto, uma utopia e uma esperança de libertação que nos orienta para onde caminhar. No ato segundo, que é a reflexão teórica a partir da prática de libertação, a grande novidade da TdL é o diálogo com outras ciências: economia política, ciências sociais e filosóficas. A TdL não foi "uma” teologia; mas, um "movimento teológico” que ia nascendo com as novas práticas de libertação e os novos movimentos sociais. Com o papa Francisco, pensamos que a TdL começou a desenvolver-se abertamente na Igreja e em comunhão com ela.

A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) confirmou que, em 2012, a pobreza na América Latina atingiu a 167 milhões. Um dos núcleos da TdL era que deviam mudar as estruturas que regiam a sociedade. Nesse sentido, se pode sustentar que a TdL é tão necessária como em seu início?

− Enquanto existir pobreza e estivermos decididos a lutar contra ela, haverá TdL. "Quando os pobres sofrem, os profetas são uma necessidade”.

Qual seria a transcendência para a TdL de que o Vaticano, pelo menos, não a combata abertamente como fez no passado?

− O problema principal não é que a TdL seja ou não seja aceita pelo Vaticano. Se legitima por si mesma a partir de sua força evangélica e libertadora. Se entra livremente no fórum público da Igreja, esta poderia acompanhar todas as correntes atuais de libertação. Já participa no movimento que grita> "outro mundo é possível” e já existem os sujeitos capazes de construí-lo.

Francisco expressou, na entrevista com La Civiltá Cattólica, que não se pode falar da pobreza sem experimentá-la. Esta afirmação o aproxima mais ao que foi defendido pela TdL?

− Com certeza. Não basta fazer uma opção pelos pobres; deve-se estar com eles; dar tempo para estar com eles e cuidar deles. Além disso, a opção pelos pobres é cada vez mais uma opção pelos "movimentos sociais” dos pobres; e isso exige "estar sempre aí”. Historicamente, a TdL nasceu nas "favelas”, nas populações marginais”, nos "tugúrios” e nos lugares mais pobres e também perigosos da América Latina. Aí vivemos, estamos e aí crescemos.

Houve entusiasmo, inclusive, de parte de figuras como Leonardo Boff e Gustavo Gutiérrez por este novo Papa. Como teólogo e estudioso, considera que Francisco contribuirá para mudanças significativos na Igreja?

− Creio que sim. Colocou signos poderosos e discursos radicais (que vão à raiz dos problemas). O papa Francisco já havia dado muitos "testemunhos proféticos”, que são somente um começo de mudanças mais estruturais e globais na Igreja. Por exemplo: a reforma da Cúria vaticana e do Estado vaticano. Alguns pensam que essa mudança é tão global e transcendente, que é possível que o "assassinem”. É possível. Porém, creio que poderia acontecer algo pior: que "fabriquem uma armadilha mortal”, que tornem sua vida impossível, uma guerra invisível e destrutiva. Existe uma "direita católica internacional”, com o apoio de um setor eclesiástico, que é capaz de tudo. Não permitirão que o "bispo de Roma” questione o sistema econômico e político global. Essa "direita católica internacional” conta, possivelmente, com o apoio do poderoso "Opus Dei” e também com a organização mais poderosa ainda: os "Legionários de Cristo” (cujo fundador, o padre Maciel, foi sacerdote pedófilo mais perverso e protegido na historia mais ou menos recente da Igreja).
Existe outro movimento "obscurantista”: "Heraldos do Evangelho”, com muito poder econômico, considerado por alguns como o "exército a serviço do Papa”.

A América Latina poderia experimentar, no novo contexto que surge com o novo Papa, um ressurgimento de suas bases, desde as comunidades que foram marginalizadas historicamente?

− Creio que é uma esperança real e possível. No entanto, devemos insistir em que os movimentos de base, como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os movimentos de leitura pastoral da Bíblia, e muitos outros, vivam com a força que lhes é própria.


[Fonte: Original em espanhol, publicado por Seminario Universidad Digital —Entrevista / 2010 País— 24 de Setembro de 2013].



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