quinta-feira, 27 de março de 2014

Teatro e religião: humanidades – Por Castro Guedes

Ao comemorar-se hoje o Dia Mundial do Teatro, julgo que não será preciso lembrar e reproduzir o que está dado como adquirido sobre a íntima ligação milenar do teatro às religiões. 

Não apenas no berço greco-latino, ligado às sagrações a Dionísios e a Baco, ou no seu ressurgimento na Idade Média através da Igreja Católica, mas indo até outros continentes, como o teatro de sombras em Bali, na Ásia (anterior ao apogeu da civilização da Grécia Antiga), ou mesmo nas raízes de ritos e danças teatralizados em África e na América pré-colonizações.

Nem sempre eles conviveram bem entre si, mas souberam ultrapassá-lo e hoje, da parte da Igreja Católica há mesmo um apelo à confluência de práticas e troca de ideias. A convocatória de artistas para o diálogo na Capela Sistina, ainda com Bento XVI, comprova-o, tendo, mesmo em Portugal, sido replicada pelo então bispo do Porto, hoje cardeal-patriarca, num encontro para onde tive a honra de ser convidado e em que participei. Aliás, se olharmos atentamente para o conceito evangelizador de Francisco I, trazendo o carácter da missão terrena do Cristianismo para um apelo a um novo e empenhado Humanismo, ainda mais concreta se faz o que foi ideia. 

Em tempos de hedonismo descartável, ausência de solidariedade e compaixão, carácter utilitário da Pessoa Humana reduzida à condição da materialidade produção/consumo, ignorada na sua Espiritualidade, encontramos na marca do novo Papa o prolongamento aprofundado dessa confluência das artes com a Espiritualidade, na beleza e na expressão de sentimentos e pensamentos. Ou, recuando, em tal se inclui o diálogo ecuménico, reaberto com João XXIII e retomado por João Paulo II, extensível à discussão benigna com ateus, por parte da Igreja Católica; ou também os encontros do Dalai Lama com cientistas ocidentais para perceber o que o Homem substantiva e essencialmente é.

O Homem, ponte e veículo destas aproximações entre religião e artes, na sua dimensão/observação de índole metafísica e religiosa, na teologia ou no estudo antropológico e da própria etologia, na dimensão psicológica ou sociológica, está no epicentro de todas as Humanidades, tal como estas são o sol dos planetas culturais, se assim se pode dizer.

Por isso, a questão que aqui me traz hoje, neste dia, não é tanto coisa específica do teatro, mas do teatro nesse contexto. A minha perplexidade já não incide sobre as políticas culturais, ou sua ausência. O que me obriga a uma reflexão-pergunta é um acontecimento recente, que passou bastante ao lado para a relevância que tem, apesar de parecer anedótico. E preocupante porque mesmo o responsável máximo da governação, presente no acontecimento, nem uma palavra de “rectificação” fez.


Refiro-me a afirmações de um putativo candidato a primeiro-ministro, porque membro de uma “jota partidária” e é deste caldo que eles têm saído, cada vez com mais frequência, piorando de sucessores para sucessores as incompetências políticas, técnicas, científicas, éticas, ideológicas, culturais, de sensibilidade social e mesmo de conhecimento da realidade real. 

A afirmação desse rapazelho, de que o ensino obrigatório deveria baixar ao 6.º ano de escolaridade e desse poderia (mesmo a nível superior) ser excluído o estudo das Humanidades, por serem “inúteis”, é, por si mesma, geradora de pânico. Mas se a isso acrescentarmos um matemático competente (embora a matemática para o vulgo seja, disparatadamente, uma igual inutilidade e uma “chatice” para os alunos), quando feito ministro da Educação, a dizer que, para ele, as Ciências da Educação estão ao nível das ciências ocultas (!), a questão adquire outra seriedade, obrigando a reflectir-perguntar se é o mesmo que pensam da religião e porque o não dizem, ou se a poupam apenas na intenção de substituir o conceito de Santíssima Trindade por Deus-Mercado, Deus-Sector Financeiro e a Sobre-exploração Santa!



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