quinta-feira, 24 de abril de 2014

Propostas de emprego mobilizam haitianos em pátio de igreja em SP – Por Letícia Macedo

A oferta de emprego para a auxiliar de enfermagem haitiana Marie-Claudine Pierre, de 41 anos, é um sinal de esperança para uma numerosa comunidade de haitianos que chegou a São Paulo nas últimas duas semanas. Entretanto, dezenas  ainda esperam por uma oportunidade de trabalho em frente à Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Centro de São Paulo.

Na manhã desta quarta-feira (23), Marie-Claudine não escondia o sorriso após o convite de um casal de brasileiros. “Estou muito contente. Foi mais rápido do que eu imaginava”, disse. No Haiti, ela trabalhava em um hospital, mas a situação financeira do país, que já não era muito boa, tornou-se ainda mais difícil depois do terremoto de 2010. 

Ela deixou o país e chegou a morar dois anos e meio em Santo Domingo, na República Dominicana. “Eu deixei dois filhos, de 17 e de 14 anos, no Haiti. Meu sonho é juntar dinheiro e trazê-los cá”, afirmou. 

Após cerca de dois meses no Brasil, ela vai trabalhar na casa do advogado Carlos Duarte, de 70 anos, no Jardim da Saúde, na Zona Sul da capital paulista. 

“Soube há alguns dias que esses ônibus com haitianos estavam chegando aqui. Como os brasileiros não estão querendo trabalhar, eu decidi vir aqui. Como ela fala castelhano, o que facilita a nossa vida”, contou.

A mulher dele, Natalina Ferreira, disse que está disposta a ajudar na adaptação da nova empregada. “A gente sabe que ela vai sentir saudades de casa. Estou consciente que vamos ter que ensinar a fazer algumas coisas, que ela não vai gostar de algumas comidas, mas a gente se adapta”, disse. O casal vai separar um quarto com banheiro para alojá-la.

Com um olhar triste, Mickeline Pierre, de 23 anos, aguardava nesta manhã uma proposta de trabalho. Na bolsa, ela guarda as fotos dos quatro filhos pequenos, que ficaram com os avós. 

“Dois têm três anos e dois, quatro”, conta enquanto os novos colegas apreciam os retratos dos gêmeos. Tendo apenas um diploma primário, ela se diz disposta a trabalhar como doméstica, dama de companhia ou em um restaurante. 

Perguntada se estava arrependida de deixar o Haiti, ela diz que não tinha mais condições de ficar lá. “Sinto muito a falta deles. Até agora não tive condições de ligar para a minha família”, afirma a haitiana que chegou em 23 de janeiro.

Como muitos dos outros haitianos hospedados de maneira improvisada na igreja, sede da Missão Paz, em São Paulo, ela entrou no país pelo Acre. Devido à calamidade provocada pelas cheias do Rio Madeira, a permanência dos imigrantes no estado tornou-se inviável. 

Por isso, o governo do estado organizou a retirada dos haitianos, que foram levados em aviões até Porto Velho, em Rondônia. De lá, partiram em ônibus para várias regiões do Brasil. Cidades do sul do país estão entre os destinos mais procurados pelos imigrantes.

A economia é ciência que me encanta. Gostaria de fazer uma pós-graduação em finanças públicas ou em política econômica. Quero voltar e ajudar na reconstrução do meu país. Eu deixei lá minha família e a minha noiva, que está me esperando"

Cada proposta de emprego que os padres apresentam ao grupo mobiliza dezenas de imigrantes. Eles escutam a descrição atentamente e entregam o passaporte para demonstrar o interesse. Ricardo Assainth, 18 anos, tenta organizar os colegas, traduzir as informações e reunir os documentos dos interessados nas vagas. 

Nesta manhã, eles tinham 15 oportunidades de emprego, sendo duas de porteiro. Quando questionado, com o que quer trabalhar, ele afirma: “Eu fiz curso de computação. Se eu encontrasse algo nessa área... Também poderia trabalhar em um restaurante”, afirma.

O economista Bien Aimé Dertilus, de 29 anos, que se comunica em francês, criolo ou inglês, ainda não domina o português, mas não teme o desafio de aprender a língua rapidamente. “Em três meses, isso estará resolvido”, estima. Incialmente, ele aceita desempenhar qualquer função, mas a longo prazo tem sonhos mais ousados. 

“A economia é ciência que me encanta. Gostaria de fazer uma pós-graduação em finanças públicas ou em política econômica. Quero voltar e ajudar na reconstrução do meu país. Eu deixei lá minha família e a minha noiva, que está me esperando”, diz. 

O fotógrafo L´Occident Benito, de 19 anos, que também já morou na República Dominicana, enquanto sonha em trabalhar na sua área. “No momento, eu aceito qualquer proposta de trabalho, mas gostaria de trabalhar como fotógrafo, que é o que me faz feliz.” 

Igreja aponta falta de apoio

O Ministério da Justiça afirmou, em nota, que “mais de R$ 4,2 milhões foram repassados para os serviços de assistência”, além de R$ 1,3 milhão para os serviços de saúde que auxiliam os imigrantes.

O padre Antenor Della Vecchia, porém, diz que a comunidade por onde já passaram mais de 500 pessoas nas últimas duas semanas não recebeu nenhum auxílio da administração pública.

“Do poder público, não recebemos ajuda, mas da comunidade civil já tivemos várias manifestações de solidariedade”, afirmou. A comunidade haitiana já estabelecida no Centro já organizou um almoço no domingo (20). Na terça-feira (21), uma sopa foi dada aos imigrantes, mas nesta quarta-feira (23) por volta do meio dia o padre sentia falta de marmitas para distribuir. 

A pasta foi procurada pelo G1 a respeito da situação enfrentada pela paróquia, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Para o padre, é importante é que a administração pública pense na criação de uma casa para acolher os imigrantes. “É preciso criar em médio prazo um espaço para acolher os imigrantes, porque eles têm necessidades específicas como aprender a língua, conhecer a cultura, entender as questões trabalhistas. Eles precisam de orientações muito específicas. Entendo que a criação desse espaço exige decisões políticas, que levam tempo. Mas existe a necessidade de se tomar uma atitude para acolhê-los agora, porque eles já estão aí”, afirmou. 

O padre também alerta para a necessidade de agilizar a emissão das carteiras de trabalho. “Eles estão dispostos a trabalhar. Têm muitos sonhos e vontades. O que falta é a oportunidade.”





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