domingo, 25 de maio de 2014

Ortodoxo fala sobre temas polêmicos – Por Divania Rodrigues

Casado há vinte e dois anos, pai de dois filhos, universitário e padre. O argentino ainda é líder da Igreja Católica Ortodoxa na Região Centro-Oeste do Brasil, há cerca de 5 anos.

O padre Rafael Javier Magul, 46, casado há 22 anos, possui dois filhos e ainda cursa faculdade. Sacerdote da Paróquia São Nicolau, pertencente à Igreja Católica Ortodoxa de Goiânia e da Paróquia São João Batista em Ipameri, Goiás. 

Rafael Magul concedeu entrevista ao Diário da Manhã e demonstrou tranquilidade ao responder sobre temas polêmicos. Demonstrou uma postura mais branda sobre política, religião e sobre a realidade do mundo atual.

Pastoralmente responsável pela Igreja Católica Ortodoxa na Região Centro-Oeste do Brasil há cindo anos, o padre é argentino e fala sobre o compatriota líder da Igreja Católica Romana, o papa Francisco. Para o pároco, o papa é visto como um líder a nível mundial, respeitado pela Igreja Ortodoxa, pois o que ele prega é muito simples: ser mais humano, estar mais perto das pessoas e ser solidário.

No Estado de Goiás, a Igreja Ortodoxa conta hoje com cerca de 50 mil fiéis e tem como centros mais fortes as cidades de Goiânia, Ipameri e Anápolis. O padre Magul foi responsável pela reconstrução da Paróquia São João Batista que estava abandonada, de acordo com ele, há 34 anos.

O sacerdote, que nasceu em Santiago Del Estero, cidade do Norte da Argentina, se licenciou em Teologia no Líbano. Foi professor e sacerdote em Buenos Aires por cerca de 10 anos e depois voltou ao Líbano onde atuou nas duas profissões, fez mestrado no país e posteriormente retornou a cidade natal. Chegou ao Brasil em 2008.

Sobre a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa da Anturquia que representa, explica que antes do ano de 1054 havia cinco ramos da religião cristã. Uma em Roma, uma em Jerusalém, outra na Anturquia, uma em Constantinopla e outra em Alexandria. Depois de um evento histórico, conhecido como o Grande Cisma ou Cisma Ocidente-Oriente, a Igreja Romana teria se separado das demais. 

“Até hoje se fala que a igreja é uma, mas que respira em dois pulmões, um no Oriente e outro no Ocidente, sendo a nossa do Oriente”, confirma o padre Rafael Magul.

Quanto a essa cisão da igreja, o padre diz que é preciso unidade mesmo na diversidade e esse é o motivo de um evento que agrupa a Arquidiocese da Igreja Católica Romana de Goiânia, a Igreja Ortodoxa e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil na primeira semana de junho, entre os dias 1º e 8. 

É a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (Souc), que também promove uma ação solidária que demonstra de maneira concreta essa vontade de união para o bem do próximo, já que a igreja, afirma o pároco, não pode ficar indiferente à necessidade do povo.

Com o lema: “Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê.” (1Jo 4,20), o evento arrecada lençóis que serão doados ao Hospital Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. 

"Porque a palavra precisa ser acompanhada de gestos”, relata o sacerdote, e foi organizado esse primeiro gesto concreto de solidariedade, pois Cristo não está dividido. “Eu espero uma igreja unida, não apenas no reino dos céus, mas aqui na terra, trabalhando juntos para fazer do mundo um lugar melhor e unido, com esperança e mais solidário e mais justo.”

DM - Uma das principais diferenças entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Ortodoxa é a questão do casamento e do celibato. Porque os padres da Ortodoxa se casam?

Padre Rafael Javier Magul - Essa é realmente uma das principais diferenças, na Igreja Ortodoxa, o padre escolhe ou ser celibatário ou se casar. Essa escolha é realizada antes do ordenamento, e uma vez sacerdote já não se pode mudar de opção. Realizar uma dessas escolhas é uma questão de vocação. Uns se casam e servem a Deus com sua família, como no meu caso, outros se casam com Deus, como celibatários, e doam toda a sua vida, nunca solitários, se fazem um só com a comunidade.

DM - Um tema recorrente e polêmico que, às vezes, encontra barreiras ao ser discutido é a prostituição, o que pensa a respeito?

Padre Rafael Javier Magul - A raiz da prostituição está na dignidade humana, pois há pessoas que prostituem seu corpo, porém há aqueles que, mais grave ainda prostituem sua moral, seus princípios, seus ideais por interesses pessoais. Hoje, temos que voltar a colocar ênfase no não-individualismo, pois ele é a origem das divisões das igrejas, dos partidos políticos. É o individualismo, o egoísmo, o hedonismo, o prazer-por-prazer, que faz com seja esquecido o próximo, a outra pessoa, os mais necessitados.

DM - O que é necessário para melhorar socialmente essa questão do individualismo?

Padre Rafael Javier Magul - Primeiro, é preciso criar um sentido comunitário. Nós somos uma comunidade, nós somos uma cidade, um Estado, um país. Os interesses gerais devem prevalecer aos pessoais, o comunitário ao privado. Realizar projetos que não visem a si próprio, mas aos demais.  

DM - Falando sobre fazer algo pensando na coletividade e não no individualismo, com relação à política atual e aos políticos brasileiros, acha que eles estão fazendo o bem?

Padre Rafael Javier Magul - Os resultados estão mostrando algo negativo e cada vez mais os políticos têm caído em descrédito. E para mudar o que o povo hoje está sentindo, os políticos vão precisar trabalhar e esforçar-se muito. Cito Jorge San Martin, cientista político, que diz que quando um decide ser político já tem 50% de pessoas contra ele. Isso não quer dizer que os outros 50% estão com ele, na verdade, eles precisam ser conquistados, com esforço, dedicação, honestidade. Eu sempre dou exemplos de países que estão em estágios melhores como Suíça, Dinamarca, Suécia, onde a corrupção é mínima. Ninguém sabe quem são os preside, mas eles funcionam porque existe um sistema que está funcionando. E nós temos que pensar em sair do individualismo, para juntos criarmos redes sociais não só para difundir ou desacreditar os políticos, mas para consolidar e juntar, consolidar e unir esses que querem fazer o bem e mudar o sistema corrupto. Cada país tem a sua realidade, mas temos que unir essas realidades, por exemplo, em projetos comunitários que agregam países como o Unasul, o Mercosul. Temos que pensar em agregar os países para o bem comum, porque só pensar em um país ou somente um salvador não é possível. Cristo é um e não pode salvar o mundo, então o que é preciso fazer: juntos tentar salvar o mundo. A América Latina tem que trabalhar em cooperação para salvar a América Latina. E quanto aos políticos, cito São Paulo que diz que a minha palavra me julgue, ou seja, eles têm que dizer a verdade e a verdade o vai julgar. Mas os políticos, hoje, arrumam uma realidade inexistente e pregam uma verdade que não existe, porque querem convencer de algo que não é. Perón, famoso político argentino, dizia que a única verdade é a realidade. O que é a política? É a arte de fazer o bem para a comunidade.

 DM - E sobre a religião e os religiosos?

Padre Rafael Javier Magul - Existem pessoas que usam a religião para dividir, nós estamos tentando usá-la para agregar. E existem hoje os demagogos da fé, que a usam para enriquecer, enquanto nós usamos a religião para ajudar os necessitados. A religião não é um meio de desunir, mas ela é usada muitas vezes com esse fim. E o resultado do que está acontecendo, hoje, no Oriente Médio, é uma falta de compreensão desse ponto fundamental. Antes dos últimos anos, na Síria, independente se estava ou não de acordo com o presidente, havia paz. Agora, essa paz está destruída porque elementos externos quiseram impor algo que não se impõe, usando o termo democracia, mas que eu chamo de falsa democracia. E hoje o resultado é uma das piores crises humanitárias já vistas depois de Hiroshima e mais de 160 mil pessoas oficialmente mortas. Hoje, o que nos une é muito mais do que o que nos divide. Temos que voltar a pensar que o nosso poder está em nossos atos, gestos e atitudes e nunca no cargo que ocupamos, que é transitório. Se eu tenho uma responsabilidade é para servir melhor ao outro e não para exercer um poder. E, muitas vezes, essas divisões são promovidas por causa de poder mundano e não divino. Enquanto existem pessoas que promovem a unidade, existem pessoas que promovem a divisão. O poder humano é momentâneo. Nós temos que deixar de pensar que os nossos fiéis são nossos clientes. Nossos fiéis são nossos filhos, irmãos, família. E um pai não deixa o seu filho com fome e não ficará feliz se ver um irmão brigar com outro. E vou usar uma expressão do papa Francisco, que diz que os irmãos brigam, mas quando são irmãos verdadeiros sentem essa nostalgia de querer estar juntos.

DM - Sobre as críticas às situações que estão postas na sociedade atual, local e mundial, o que pensa?

Padre Rafael Javier Magul - É, infelizmente, até aqueles que fazem críticas às situações que aí estão são comprados. Então, quando vamos ler uma crítica temos que ver com até três olhos. Entender o porquê e o momento em que estão dizendo, porque nem todos estão expondo sua real opinião, mas o que querem que ele diga. Estamos voltando perigosamente ao sofismo dos primeiros séculos, quando os oradores sabiam que estavam dizendo uma mentira, mas tinham o poder de convencer os demais.

DM - Outra polêmica em alta na atualidade é a questão da homossexualidade, o que tem a dizer a esse respeito?

Padre Rafael Javier Magul - A bíblia é clara: homem e mulher, todos os demais são anti-naturais. Nós temos que atender as necessidades do povo, atendê-los, escutá-los e amá-los. Nós dizemos que amamos aos pecadores e não ao pecado e não justificar o que não tem justificativa. O problema original é que precisamos aprender a respeitar, aceitar ao outro como é. Seguimos a linha do papa Francisco: não estamos aqui para julgar, estamos para servir. Se nos vêm um homossexual, o acolhemos, nós o amamos como pessoa, apenas não o justificamos. Não se pode mudar a Bíblia para se adequar a realidade, a realidade é que precisa ser ajustada à Bíblia.

DM - O que pensa sobre os conteúdos que a televisão reproduz, ou sobre as tentações postas no mundo?

Padre Rafael Javier Magul - Eu não tenho medo das novelas, eu não tenho medo que meus filhos frequentem boates. O problema fundamental é a falta de acompanhamento dos pais aos filhos. A falta da família é o vilão. Pai ausente, droga presente, corrupção presente. Toda pessoa precisa de controle, e quem melhor para fazer isso do que um pai ou uma mãe. Não podemos deixar que o mundo cuide dos nossos filhos. Com as drogas, o problema é esse, e não o legalizar ou deixar de legalizar. É preciso que os pais conscientizem os filhos sobre os perigos dos vícios. As drogas matam os nossos neurônios e mata a família, torna o viciado um elemento externo à comunidade, à sociedade. E o primeiro passo para as drogas é a bebida. Mas hoje, no mundo, ela é vista como algo natural, têm pais incentivando os filhos a beberem. As coisas não naturais não podem ser tratadas como normais. A Bíblia diz que um pouco de vinho alegra o coração do homem, mas apenas um pouco, tudo tem que ser controlado. Deixar que um adolescente beba para mim é um crime, pois eles não podem ainda ter a maturidade para saber o que é certo e o que é errado.

DM - É difícil trazer as pessoas para a igreja nos dias de hoje?

Padre Rafael Javier Magul - A família quer voltar para a igreja e precisa de um apoio comunitário, porque se sente sozinha. Existem sim pessoas que querem encaminhar-se e por isso precisamos sair às ruas e estar comprometidos com o povo, como disse o papa. Precisamos dar testemunhos porque as pessoas ficam marcadas pelos gestos, é por isso que o evento da Souc pensa nos gestos. Porque sozinho, nós ajudamos, mas juntos, nossa ajuda será mais forte.

"Primeiro é preciso criar um sentido comunitário. Nós somos uma comunidade, nós somos uma cidade, um Estado, um país. Os interesses gerais devem prevalecer aos pessoais, o comunitário ao privado. Realizar projetos que não visem a si próprio, mas aos demais. "Eu espero uma igreja unida, não apenas no reino dos céus, mas aqui na Terra, trabalhando juntos para fazer do mundo um lugar melhor e unido, com esperança e mais solidário e mais justo.”



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