terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ministro Machete foi ao Teerão dizer que jovens vão transformar o mundo


As estudantes iranianas Latifi e Zahra gostaram de ouvir o ministro português Rui Machete dizer hoje, na Universidade de Teerão, que "é a juventude que vai transformar o mundo", de preferência "para melhor".

O chefe da diplomacia portuguesa, que hoje termina a visita oficial de dois dias ao Irão, discursou ontem (26/01), perante um auditório cheio, dirigindo-se diretamente aos estudantes universitários de um "país bastante jovem", que têm sido, ao longo da história iraniana, atores dos mais significativos protestos a favor da democracia e da liberdade no país.

Por isso, Rui Machete aproveitou para dizer que espera que a juventude iraniana receba "a educação e as oportunidades que lhe permitam escolher o caminho do desenvolvimento, do crescimento, da democracia e da paz".

Na plateia, maioritariamente masculina, estavam algumas mulheres. Latifi, de 35 anos, era uma delas. Terminado o mestrado, está a pensar se continua para doutoramento, porque já trabalha.

"As iranianas casam-se, têm filhos, estudam e trabalham ao mesmo tempo", relata, confessando que não sabe bem se quer isso para si, ainda que não seja comum que uma mulher da sua idade seja solteira.

Rapazes e raparigas recebem tratamento igual na universidade e, "mais do que antes, hoje há oportunidades de estudo e trabalho para as mulheres", assegura, admitindo que, "de certa forma", a liberdade aumentou com Hassan Rohani, o atual Presidente.

Zahra, de 30 anos e investigadora na universidade, concorda, mas realça que ser "mais reformista" do que Mahmud Ahmadinejad, o anterior chefe de Estado, não era difícil. "Estamos à espera para ver o que Rohani vai fazer", diz.

A Universidade de Teerão, centro da discussão política e palco de regulares tensões com o sistema dos ayatollahs, tem estado "calma, sem protestos". 

Hoje, assinou um memorando de entendimento com a Universidade de Lisboa, que reforça a cooperação e aumenta as oportunidades para os estudantes de ambos os países.

Existem cerca de 50 alunos iranianos em Portugal, que quer aumentar esse número. Teerão também gostava de receber alunos portugueses e tem ainda outros desejos: um professor de língua portuguesa e livros em português para a biblioteca, Latifi e Zahra lamentam que o exterior tenha "uma imagem distorcida" do Irão. 

"Não somos um país de radicais", frisa a primeira, culpando os "muitos inimigos" da república islâmica, liderados pelo "imperialismo", por essa visão deturpada da realidade. "Não conhecem nem querem conhecer o Irão", critica.

Zahra tem estudado um dos arqui-inimigos do Irão: os Estados Unidos. Reconhecendo que será difícil recuperar o tempo do corte nas relações entre os dois países, afirma que espera progressos.

“A islamofobia, lamenta, é hoje uma realidade, e a Europa e os Estados Unidos têm responsabilidades, por seguirem a visão do "West and the rest [o Ocidente e o resto]".

Na sua alocução, o ministro Rui Machete não fugiu ao tema quente da religião muçulmana, usada como arma de arremesso por grupos fundamentalistas e terroristas.

"A religião é um elemento importante das nossas sociedades, (...), mas a forma como algumas pessoas, alguns movimentos (...) estão a corromper os seus verdadeiros ideais representa uma ameaça para as nossas sociedades", alertou.

Essa ameaça não pode ser ignorada, exigindo um combate conjunto, sustentou. "Temos de permanecer vigilantes, porque a verdade e a mentira estão separados por um fio de cabelo", recordou, citando o poeta persa Omar Khayyam.

"A ideia de que a religião é uma das principais fontes de mal e violência no mundo é errada, injusta e também perigosa", sublinhou o governante português, frisando que "é muito importante erguer a voz contra a ignorância".

Ao Irão, Portugal prometeu apoio, desde que o regime de Teerão se comprometa com a democracia e os direitos humanos.

Mas "o que é a liberdade?", questiona Zahra, dando como exemplo o 'hijab', véu que cobre a cabeça das mulheres iranianas, de uso obrigatório e extensível às estrangeiras.

"As mulheres usam diferentes véus. Eu uso o 'chador' [batina negra que cobre as mulheres da cabeça aos pés] porque gosto e não porque alguém me tenha dito que tenho de usar. Sigo a minha religião e as minhas crenças", explica, contando que o retira quando sai do país ou vai até às montanhas.

Se "um homem é do tamanho do seu sonho", como escreveu Fernando Pessoa, citado por Rui Machete no final do seu discurso, para Latifi e Zahra uma mulher não sonha menos por estar coberta por um véu.






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