sábado, 28 de fevereiro de 2015

Rockefeller, nazis, talibãs e agora Estado Islâmico? Não é o mesmo - Por Leonídio Paulo Ferreira


Vem de imediato à memória a destruição dos budas de Bamiyan pelos talibãs quando se vê o Estado Islâmico a partir à martelada estátuas assírias com milénios. 

E é tentador imaginar a mesma lógica nas duas barbáries, obra de jihadistas decididos a apagar os vestígios pré-islâmicos, budistas no caso do Afeganistão em 2001, pagãos agora em Mossul, terceira cidade do Iraque e desde 2014 controlada pelo Estado Islâmico. Mas as aparências enganam: entre os estudantes de religião do mullah Omar e os combatentes de Al-Baghdadi vai uma grande diferença. Para pior.

Primeiro que tudo, arte destruída em nome da religião é uma constante da história. Basta pensar na febre iconoclasta que sacudiu o Império Bizantino nos séculos VIII e IX, e que pode ter sido influenciada pela ascensão do islão, desde o primeiro momento inimigo da adoração de ídolos. É incalculável o número de mosaicos, pinturas e estátuas vítimas de um fanatismo que acabaria por acentuar o fosso entre a cristandade oriental e Roma ainda antes do Grande Cisma. 

Outra vaga de destruição coincidiu com a Reforma protestante no século XVI. Ainda há dois anos a Tate Britain, em Londres, acolheu uma exposição destinada a celebrar a arte medieval, mas também a evocar a destruição desta que começou com Henrique VIII e durou 150 anos.

Mas não foi só a religião que atentou contra a arte. Tanto soviéticos como nazis consideraram alguma dela como decadente ou degenerada, com os últimos a alimentarem a hipocrisia de tanto saquearem obras-primas para o Führer como, em alguns casos, de destruir pinturas por as considerarem menores. 

Exemplos? A queima em Paris em 1942, incluindo trabalhos de Picasso, e a dinamitagem pelos SS do Castelo de Immendorf, na Áustria, em 1945. Neste caso, perdeu-se uma dezena de quadros de Klimt.

Nisto de ideologias incomodadas com a arte, nenhum extremo merece ser poupado. Por exemplo, o comunismo na versão chinesa também mergulhou a partir de 1966 numa fúria destruidora da arte antiga, com milhões de estudantes a responderem aos apelos de Mao para uma Revolução Cultural.

Valeu a ação de certos dirigentes mais lúcidos, e também que boa parte dos tesouros imperiais estivessem num museu em Taiwan, para onde os tinham levado os derrotados da guerra civil.

Já a esquerda preferirá relembrar a dureza com que John D. Rockefeller ordenou a destruição de um mural que tinha encomendado a Diego Rivera. Convencido pela mulher a convidar o artista mexicano para decorar o novo Rockefeller Center em Nova Iorque, o herdeiro de uma das mais famosas dinastias capitalistas ficou indignado quando Rivera pintou a figura de Lenine. 

Fracassados os esforços para convencer o muralista a apagar os traços do revolucionário soviético e a substituí-los por Lincoln, o magnata expulsou Rivera e ordenou a destruição da obra a golpe de picareta.

Que a arte, antiga ou moderna, sacra ou profana, suscite estes ódios tão diversos prova a sua força. Ao ponto de poder ser vista como uma inimiga. Foi o que aconteceu com os talibãs, que nascidos nas escolas corânicas dos campos de refugiados afegãos no Paquistão começaram por ser moralizadores da sociedade contra os senhores da guerra mujahedins e acabaram a proteger a Al-Qaeda, o que lhes valeu ser bombardeados pelos Estados Unidos após o 11 de Setembro. Na atual versão, encarnam o nacionalismo pastune contra os regimes de Cabul patrocinados pelo Ocidente.

Já o Estado Islâmico revela origens bem mais complexas. Se tem raízes na Al-Qaeda do Iraque, que combateu os americanos após estes terem derrubado Saddam, revela hoje ser uma organização capaz de mobilizar antigos militares e recrutar estrangeiros com know-how, assumindo-se como bastião dos sunitas do Iraque e da Síria, em revolta contra governos xiitas. 

Ora, tanto para assustar os inimigos como para atrair novos jihadistas, o grupo não descura usar a violência mais abjeta, seja degolando estrangeiros, seja queimando vivo um piloto árabe, seja ameaçando de limpeza étnica yazidis, cristãos e curdos.

Ainda antes das imagens de destruição das estátuas em Mossul já se sabia da queima de livros (os autos dafé referidos pelas agências noticiosas que usam as palavras portuguesas sinónimo de fogueira da Inquisição). Tudo numa lógica de regresso aos tempos do Profeta, esse século VII que Al-Baghdadi, ao proclamar o califado, tem por referência. Mas o sucesso do Estado Islâmico, a ponto de se assumir como concorrência à Al-Qaeda, passa também pela eficácia com que se financia. 

Tinha a indústria dos raptos e o contrabando de petróleo, mas este último deixou de render porque o preço do barril está em queda. Resta assim um outro negócio lucrativo, o do contrabando de antiguidades. 

Sabe-se que o Estado Islâmico cobra taxas sobre esse tráfico milionário. E desse ponto de vista parece bizarra a recente sanha destruidora dos militantes no Museu de Mossul. Mas alguns arqueólogos já notaram que no Estado Islâmico há quem perceba o que rende milhões por muito ofensivo que possa ser à fé e aquilo que, contas feitas, pode ser destruído para propaganda.

Dos talibãs ao Estado Islâmico vai, pois, grande diferença. Os estudantes de religião chocaram quando quiseram impor a hindus e sikhs o uso de dísticos, quase uma cópia da estrela que os nazis forçavam os judeus a usar. O Estado Islâmico ameaça matar quem não se converta, e isso é uma distinção tremenda.

Tão mais frios são do que os talibãs que quase se pode imaginá-los, se Bamiyan fosse nas suas terras, a tentar vender os colossos para financiar a guerra santa. E vendo bem, se o regime talibã caiu ao fim de dois meses de bombardeamentos, com Omar a fugir, o Estado Islâmico resiste há seis meses aos aviões da coligação internacional. E Al-Baghdadi reina em Mossul.




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