quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Shabat na Comenda – Por António Jacinto Pascoal


Conheço indivíduos que, reclamando o seu ateísmo (e normalmente dotados de um enorme ego), vivem uma austera, apagada, vil e insossa liberdade.

A mais interessante experiência espiritual que vivi, num ritual religioso, sucedeu numa sinagoga, em Jerusalém. Um cristão numa sinagoga não é um contra-senso como se possa julgar. Naquele lugar senti o acolhimento e o lugar de pertença, ainda que estivesse na qualidade de espúrio, o “postiço”, como diria Torga. 

Mas ou pelos cânticos (Adonai, entoava-se) afinadíssimos em uníssonos masculinos ou pela alegria contagiante (em que se celebrava também a antecipação de um casamento), ou porque um judeu me explicou em inglês e detalhadamente o que se estava a passar, ou porque o rabi perorava e fazia libertar risos cúmplices na assembleia e era também interpelado, ou porque isto tudo (meio exótico) se conjugava, o certo é que gozei aquela experiência de que se fala com júbilo ou desdém.

Agora, passado algum tempo, experimentei algo semelhante, num templo da Igreja Adventista do 7.º Dia, numa pequena comunidade da Comenda, cujo culto foi celebrado por uma jovem de 15 anos, capaz de fazer corar muito padre da Igreja católica, quanto à homilia e à argumentação. Diga-se, aqui para nós, que é necessário reabilitar o estudo bíblico.

Se há algo que alguém de fora possa obstinadamente apontar às religiões e aos crentes é o facto de se tornarem sectários e, por isso, limitadores, assim também em relação às questões gerais da vida. 

Para muitos, um crente é um indivíduo sem liberdade, pois restringe a sua vida a preceitos, regras e ditames, proclamando uma visão idealista circunscrita ao interior de um ideário. Os arautos do espírito das Luzes e dos valores democráticos e universais consideram, em geral, as religiões uma forma de domesticação mental (alheia à libertação proveniente dos valores do progresso, razão e crítica do Iluminismo). Mas não é mais livre o homem pagão do que o homem crente, a dicotomia é até indigente. 

Livre é aquele que, independentemente do que professe, deixa cair as barreiras que há entre si e o mundo. Conheço indivíduos que, reclamando o seu ateísmo (e normalmente dotados de um enorme ego), vivem uma austera, apagada, vil e insossa liberdade. Aliás, a democracia também domestica, como bem se sabe.

Se as religiões parecem espartilhar o mundo, mais certo é que fariam bem em deixar-se contagiar. Adianta Bento Domingues: "As religiões só têm a ganhar deixando-se interpelar mutuamente em ordem a uma aliança para a abertura ao mistério divino que nenhuma pode abarcar e para se colocarem ao serviço de todos os seres humanos, sobretudo dos excluídos."

Quanto ao lugar de Deus e à geografia do além, John Wayne dizia: “Não gosto lá muito de Deus, quando ele se encontra debaixo de um telhado." Mas os crentes são cada vez mais unânimes no que toca à admirável mobilidade de Deus. 

Se os templos e as igrejas existem, isso não acontece para validar o lar de Deus, mas para confirmar o espaço da vida comunitária, cujo sentido radica no termo grego ekklesia (reunião). 

Para um crente, Deus está para além dos templos, não necessita de telhados, nada o fecha. Segundo Timothy Radcliffe, Dan Berrigan terá dito: 

"A tua fé raramente está onde está a tua cabeça ou o teu coração. A tua fé está onde está o teu traseiro!" 

Isto permite-nos duas leituras: a intuitiva, que é o resultado de uma fé de aparência e legitimação social; e uma outra que nos permite pensar que a fé só existe em confronto com o outro e que reclama os actos: «unus christianus, nulus christianus» (um só cristão não é nenhum cristão).

A experiência espiritual é mais comedida do que se possa pensar. Não resulta de nenhum tipo de espectáculo. Quando me disseram que gostariam que saísse do templo de uma forma diferente daquela em que estava antes de entrar, pensei que não devemos procurar nas celebrações experiências muito emocionais (mesmo que elas aconteçam). 

É que "a nossa transformação pela graça de Deus é um processo lento" e "a Eucaristia é um enorme acontecimento (…) tão imperceptível como o crescimento de uma árvore" (Radcliffe), aquilo a que J. Henry Newman chamou "a silenciosa obra de Deus". Ora, para tal é necessário eliminar o ruído mental, a vozearia interna, e isso é complicadíssimo.


Saí, de facto, diferente daquele pequeno templo. Ao fim da manhã, o vento soprava forte e tal lembrou-me que havia sido inspirado por uma jovem, alguém que deixou que o vento de Deus soprasse através de si. Quando temos um bom vento, sentimo-nos coagidos a respirar com mais intensidade. Li também em Radcliffe, e só o posso associar às narinas insufladas do Génesis, que a nossa respiração é a nomeação de Deus: 

"A primeira coisa que uma criança faz, após o nascimento, ao respirar pela primeira vez, é expressar o nome de Deus." Haja vento. "Não, não sou eu, mas é o vento que sopra através de mim", como dizia D. H. Lawrence.



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