domingo, 29 de março de 2015

Beatificação de Oscar Romero revela luta simbólica em torno do mártir católico – Por Rodrigo Coppe Caldeira




"Nós não somos demagogicamente a favor de uma classe social; nós somos a favor do Reino de Deus, e nós queremos promover justiça, amor, e compreensão, onde quer que haja um coração bem disposto", Mons. Oscar Romero em homilia proferida em 1979.

Que a comunicação seja um fenômeno complexo, marcado por mediações por onde atravessam os signos linguísticos, que são difundidos, recepcionados e apropriados de maneiras diferentes, é um fato indiscutível. 

O tema da apropriação nessa seara é um dos mais instigantes. Tratei dele, de alguma forma, quando escrevi um artigo para a Folha de S. Paulo que perguntava em seu título se o pontífice era comunista. 

Lá, observei a existência de grupos à esquerda e à direita do espectro político que se apropriavam de Francisco, fazendo dele um propugnador de seus ideais, como tenta o primeiro grupo, ou um inimigo da Igreja e sua tradição, como advoga o segundo.

Ontem me deparei com um artigo de Frei Betto em sua coluna no O Globo. O articulista tratava da beatificação do arcebispo de San Salvador Dom Oscar Romero, contumaz defensor dos direitos humanos em seu país dividido pela guerra civil. Num dos trechos do texto afirmou: 

"Para os católicos conservadores, canonizar Romero significaria sacralizar a Teologia da Libertação, da qual se tornara adepto ao fazer opção pelos pobres." 

A frase faz o leitor concluir duas coisas: que Romero, ao fazer a opção pelos pobres, se tornara automaticamente adepto da Teologia da Libertação, e que os "católicos conservadores" acreditam que o arcebispo pertencia a essa corrente teológica, o que pode ser uma verdade apenas parcial, relativo, no caso, aos mal informados.

Os usos da figura de Dom Romero pela chamada "esquerda católica" latino-americana, com o intuito de fazer dele um de seus baluartes, percorre o mesmo caminho da apropriação do papa Francisco como imagem e semelhança de suas causas políticas. Se aplicamos a conclusão de Betto universalmente, Francisco também se tornaria um adepto da Teologia da Libertação "ao fazer opção pelos pobres". 

Na América Central podemos encontrar camisetas que trazem Romero ao lado de Salvador Allende e Che Guevara. Num futuro próximo, talvez Francisco esteja entre os personagens.

Betto relembra no início de seu texto, no entanto, que Romero demonstrava "nítidas tendências conservadoras" e que era "avesso à Teologia da Libertação". De fato, o era. E pelo que consta, parece nunca ter se afastado dessa posição, como o frei quer fazer crer. Segundo seu secretário pessoal, Mons. Jesús Delgado, Romero nunca tinha se interessado por essa perspectiva teológica. 

Os livros que ganhava dos teólogos da libertação que o visitava eram deixados de lado pelo bispo. Nunca os lia, de acordo com o secretário. A pastoral de Romero era profundamente inspirada no Evangelho. 

Segundo Delgado, "da Teologia da Libertação não sabia nada [...] ele estava aderido fielmente à Igreja Católica e sobretudo à doutrina dos papas".

O site do Opus Dei

movimento conservador da Igreja Católica fundado por São José Maria Scrivá, considerado um antípoda dos católicos progressistas, traz com júbilo em 15 de fevereiro de 2015 a notícia da beatificação do salvadorenho. 

Segundo Dom Javier Echevarria, prelado do grupo, Romero foi um dos primeiros bispos a se manifestar ao papa Paulo VI defendendo a abertura do processo de canonização de Scrivá. 

O assassinato do bispo salvadorenho no dia 24 de março de 1980 foi precedido, segundo o site, de uma "convivência para sacerdotes organizada por sacerdotes do Opus Dei", com a presença de Romero. Além do mais, Romero teria profunda admiração pela espiritualidade do grupo.


Uma volta pela web e encontro artigo do jornal El País intitulado: "Papa aprova a beatificação do maior nome da Teologia da Libertação". O jornal espanhol já escolheu o seu lado.



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