quinta-feira, 25 de junho de 2015

Bíblia na escola: o “Conhece-te a ti mesmo” e a grade curricular – Por Paulo Ghiraldelli


Platão falou na Atlântida. Podemos investigar se ela existiu, mas não temos de saber isso ou crer nisso para ler Platão. Para além de uma formação em filosofia, lemos Platão como um dos livros básicos da cultura ocidental. 

Não precisamos acreditar que os deuses interviram na Guerra de Tróia, como Homero colocou na Ilíada. Nem há de se crer na própria ocorrência da Guerra de Tróia. Para além de formação em filosofia ou história, lemos Homero como um dos livros básicos da cultura grega, que é fundamental para entendermos o Ocidente. 

Por essas leituras sabemos da nossa formação, inclusive da nossa cultura soterrada na parte mais remota de nossos cérebros, responsável por nossa mentalidade. Todavia, nossa cultura não é só grega. Nem mesmo só greco-romana. Ele é também judaico-cristã.

Não precisamos acreditar que o cajado de Moisés, por ordem de Deus, virou uma serpente. Tomamos o encontro de Moisés com Deus como um momento em que leis são postas para um povo que queria deixar de ser nômade, que queria realmente se estabelecer como nação e não só um conjunto de tribos. 

Assim fazendo, compreendemos como que a cultura greco-romana se fundiu com a cultura judaica e deu a base mais completa de nossa cultura ocidental, também banhada pelo cristianismo. Desse modo, ler a Bíblia faz parte de nosso engrandecimento cultural. É um grande texto poético, que pertence não só ao campo religioso e não está aí só para crentes lerem (não raro de modo literal e, portanto, errado), mas fundamentalmente para estudiosos de história, antropologia e sociologia. Para todos que querem ter cultura geral.

A Bíblia tem de estar na escola. O ideal é que fosse lida por historiadores e filósofos. Mas se for lida por professores dogmáticos, desses parecidos com pastores incultos, ainda assim o livro é válido. Os alunos mais inteligentes logo perceberão, por obra do professor de português, que o gênero literário da Bíblia não é o da física ou química, não é ciência, e tem a ver com o universo de sentido, não com o sistema de verdade.

Assim, antes a Bíblia e não o criacionismo cabe perfeitamente na escola. Alguém pode dizer então: cabe o Alcorão? Cabe, mas com peso diferente. Não aprendemos a história do Oriente com o peso da do Ocidente. Nosso modo de estudar tem a ver com o “conhece-te a ti mesmo”, o preceito délfico utilizado por Sócrates. Damos importância curricular ao nosso patrimônio cultural mais que o dos outros. Por isso, por exemplo, temos mais horas de aulas de português que de inglês, embora jamais possamos dispensar as aulas de inglês. Por isso ter tirado o grego e o latim da escola foi um erro.

Outros dizem que a Bíblia é só religião e que será ensinada por dogmáticos. Ora, tudo que aprendemos é dogmático. A relativização dos conteúdos e sua crítica é mais tardia, e nem sempre vem. 

Não temos que esperar ter professores perfeitos para ter a Bíblia na escola, do mesmo modo que não esperamos professores perfeitos para fazer a volta da filosofia e da sociologia no ensino médio. Aliás, do modo que pagamos os professores, não temos professores bons na quantidade que deveríamos ter em escola nenhuma. Mas a grade curricular não deve ser empobrecida por não estarmos pagando bons salários. 

Temos de melhorar o salário, não empobrecer a grade curricular. A Bíblia na escola é bem-vinda. Vai ajudar demais nossos alunos nos estudos, e talvez até reative debates éticos. A Bíblia é coisa séria demais para deixar só na mão de pastores, fora do ambiente escolar.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).






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