quinta-feira, 25 de junho de 2015

Pela liberdade de crença



Uma manifestação contra a intolerância religiosa e o preconceito, realizada na manhã do último domingo, marcou a cidade do Rio de Janeiro.

A ação, que contou com a presença de representantes de várias religiões, teve início com uma concentração no Largo do Bicão, na Vila da Penha, seguida de uma passeata em direção ao local onde a menina Kaillane Campos foi apedrejada na cabeça.

Cerca de mil pessoas participaram do ato de repúdio à violência que chocou o Rio de Janeiro. Entre os representantes religiosos, era expressiva a presença dos evangélicos, que empunhavam cartazes em favor da paz.

Um dos primeiros a chegar foi o irmão Sinval Viana, da Segunda Igreja Batista de Petrópolis. Ao ouvir o comunicado de que haveria a manifestação, decidiu apoiar essa causa em fazer da liberdade de fé e da paz. Enquanto aguardava o início da manifestação, conversava e tirava foto ao lado de representantes do candomblé, mostrando que ser cristão é ser representante do amor.

“Hoje temos um fundamentalismo que praticamente exala uma violência que não coaduna com o povo batista e com nenhum cristão. Principalmente não coaduna com os ensinamentos de Jesus Cristo. Então eu acho muito válida essa manifestação, esse ato público. Vi que teria esse ato não em defesa de Deus porque Deus não precisa de defesa, mas que nos reuníssemos para colocar nossa indignação frente a essas questões”, afirmou Sinval.

A menina Kaillane chegou ao local da concentração por volta das 11h. Caminhava entre sua mãe, que é evangélica, e sua avó, também do candomblé. O turbante em sua cabeça escondia parte do curativo colocado para tratar da ferida em sua cabeça. Ferida esta que continua aberta na mente de todos que defendem a liberdade de culto. 

“A pedrada da Kaillane foi em todo mundo, foi no Brasil, foi em toda pessoa do bem. Essa pedrada não foi só na Kaillane. Ela foi o veículo para que a gente possa gritar e exigir que achem esses culpados, e eles sejam condenados como bandidos. Eles não são religiosos”, disse Katia Marinho, avó de Kaillane Campos.

O pastor da 1ª Igreja Batista de Vila da Penha, João Luiz Sá Melo, teve a oportunidade de falar ao público presente. Sua igreja tem sido fundamental nesse momento. Após ter sido procurado pela mãe de Kaillane, Karina Marinho, pr. João tem aconselhado a família e aproveitou a oportunidade para pedir desculpas em nome dos evangélicos.  

“A mãe da menina é evangélica e nos procurou. Estivemos inclusive com a menina, pedindo perdão por conta da agressão dessas pessoas que não são evangélicas, são agressores. E nós, como igreja batista, sempre lutamos pela liberdade religiosa para que entendam que nós respeitamos a religião dos outros. Repudiamos qualquer ato de intolerância e anunciamos um Deus que é paz e amor. Nossa presença aqui é para passar a mensagem de que somos de Cristo, somos da paz, contra a violência e contra a intolerância porque Jesus jamais ficaria dentro das quatro paredes… ele estaria perto das pessoas que falam de paz. É ali que ele estaria e é por isso que estamos aqui”, afirmou pr. João.

Para o babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, intolerância é um fato que acontece todos os dias no país. Ele ressalta que o apedrejamento sofrido por Kaillane foi expressão facista, condenável por uma sociedade que prega a liberdade de culto. 

“Isso não é uma atitude bem-vinda para ninguém numa sociedade democrática como a nossa. Primeiro vão nos perseguir, mas depois virão os outros. Não quero acreditar que isso é uma postura da maioria dos cristãos porque não é, mas o silêncio da maioria faz com que esses grupos se coloquem da forma como tem se colocado”, explicou Ivanir.

Segundo o representante do candomblé, tão fundamental quanto a identificação dos criminosos que apedrejaram a menina, é a identificação de doutrinas que pregam o ódio e o preconceito aos fiéis.

“Do ponto de vista religioso isso é uma blasfêmia porque existe o livre-arbítrio. Essa pedra foi muito mais longe do que a gente possa pensar. Ela não foi só na menina, foi na sociedade brasileira, na democracia”.

Outros representantes da Convenção Batista Carioca (CBC) marcaram presença na manifestação, entre eles Ronan Lima, executivo da Juventude Batista Carioca, e o presidente da CBC, pr. Dejalmir da Cunha Waldhelm. Para eles, esta é uma oportunidade que não pode ser perdida, como explica o presidente:

“Entendemos como CBC que não poderíamos ficar de fora para manifestar nosso posicionamento com respeito a essa intolerância, essa atitude que foi tomada contra essa menina. Nós batistas sempre levantamos essa bandeira, no sentido de que cada um possa ter a sua liberdade. Colocamos aqui nosso posicionamento de que não aceitamos essa violência e que propagamos a paz de Cristo. Para mim é importante participarmos desse momento histórico aqui na cidade do Rio de Janeiro”.






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