segunda-feira, 6 de julho de 2015

Os 45 anos de religião de um babalaô – Por Carlos Nobre


Autor de 16 obras sobre a cultura religiosa afrobrasileira e professor do mestrado em Antropologia Sociocultural da Universidade de Havana (Cuba), o babalorixá e babalaô Fernandez Portugal Filho, 64 anos, formado em Ciências Sociais, está completando 45 de iniciado na religião dos orixás.

Ele foi iniciado nessa religião, em 1970, em Belford Roxo, Baixada Fluminense, pelo pai-de-santo Zezito de Osun. Mas, aos 14 anos, já houvera conhecido a umbanda, numa casa religiosa na Penha, levado por parentes. 

Há mais de 30 anos, ele também se iniciou na maçonaria e é filiado à Loja Salomão, do Grande Oriente do Brasil (GOB), e nessa instituição ocupou diversos cargos administrativos e ritualísticos.

Há duas semanas, para comemorar os 45 anos de feito, ele acabou dando um almoço para amigos e filhos religiosos, num restaurante da Tijuca, onde agradeceu as homenagens por quatro décadas e meia de trabalho religioso. 

Ele é considerado um dos mais profícuos autores de religiosidade africana no Brasil, alguns de seus 16 livros estão esgotados, só encontráveis hoje em sebos digitais como "Ossayn: o senhor das folhas" e "Axé: o poder dos deuses africanos".

Lançou os seguintes livros pela Editora Madras: "Formulário Magico e Terapêutico", "Ifá: o senhor do destino", "Guia prático da língua yorubá", "Os búzios da Santeria: manual para divinização por meio dos 16 odu segundo a tradição afro-cubana", "Olhos de fogo, coração de mel", "Uso mágico e terapêutico do sabão da costa" e "Manual prático do jogo de búzios".

Em 2016, estão previstos mais dois livros, um sobre o emprego de ervas na religião afro e outro sobre a gramática yorubá, o primeiro com quase 400 páginas e o segundo em torno de 600. Rigoroso e metódico em suas ações religiosas, ele afirma que desde o final dos anos 1980 adotou a religião yorubá, que, segundo sua concepção, é diferente no estilo ritualístico do candomblé, embora os orixás sejam os mesmos.

A respeito do babalaô, o intérprete dos signos do sistema de adivinhação africano chamado de Ifá, ele diz que o sacerdote desse sistema deve estudar continuamente. "A iniciação em Ifá mudou radicalmente a minha vida", diz ele. 

Vejam trechos de uma conversa que o sacerdote afro teve com nosso blog:

Avaliação Pessoal

"As reflexões são muito naturais sobre esses 45 anos de santo. Na verdade, há oscilações nessa caminhada espiritual. Não se têm somente vitórias. Posso dizer que podemos falar de uma sobrevivência total, e vivenciá-la. Não vivencio como atribulações, com bravatas, tipo assim: ah, eu tenho 45 anos de santo... já se passaram, não vou ficar me apegando somente ao tempo. Essas quatro décadas e meia foram muito importantes, aprendi muito. Mas também tive decepções e questionamentos íntimos. Isso faz parte da nossa trajetória. O mais importante foi o que aprendi e vivi, ou seja, a busca da harmonia de um modo geral".

Trator

"Em minha avaliação, toda trajetória na qual você galga um espaço de referência, seja midiático ou religioso, ele sempre é pontilhado por situações adversas, por conflitos. Em certo sentido, reconheço que eu avancei como um trator até ajustar-me com a dinâmica da natureza, fugi de coisas fáceis. Na religião, aprendi o código referencial de existência. Em minha vida, optei pela cultura negra, ou seja, me pontuar na vida pela sua filosofia".

Yorubá Ou Candomblé

"Os orixás são os mesmos. No caso da religião yorubá, o que diferencia é a forma de culto, a ausência de ostentação, a natureza do segredo, as convocações, a magia... Nesse caso, as atividades aos orixás se processam mais solene, mais recatada, mais prudente, mais comedimento, digamos assim. É uma coisa majestosa, cada passo é prudente".

Iniciação ao Yorubá

"Tudo aconteceu de forma extraporânea, não há uma pessoa que possa definir minha pessoa como indicada ao culto. Naquela época, eu dava sinais de cansaço e insatisfações no candomblé, que foi adaptado aqui no Brasil por africanos e brasileiros. Naquela época, a cabeça estava muito forte, vinha procurando afirmação. Por que eu estava procurando outro sentido religioso? Porque eu não gostava em algumas casas religiosas dos maus tratos que as pessoas sofriam. Também me deixava insatisfeito a falta de compromisso, a falta de horário... eu não me costumava com as respostas cretinas e absurdas que recebia, e como me tratavam como verdadeiro parvo. Como já vinha de outro nível social e cultural, eu já fazia a diferença nesse meio. Mas era muito ingênuo nesse meio. Eu não atinei para essas diferenças. Eu vi muita gente sendo usada como uma massa de manobra. Eu disse 'meu lugar não é aqui'. A coisa perdeu seu encanto. Todas as coisas têm uma atração e um encanto, como começam e terminam, eu não sei... mas isso foi se perdendo, foi se criando outras convicções... aquilo é um casamento, quando há separação, cada um para seu lado, perdeu-se a confiança. Na época, eu já era babalorixá. Me iniciei num candomblé de Belford Roxo, na Baixada Fluminense".

Contato com os Yorubás

"Naquela época, comecei a ter contatos com nigerianos na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde existia o convênio Brasil-Nigéria de estreitamento de laços culturais entre as duas nações, um relacionamento fortalecido pela diáspora. Naquela época, fazia amizades com eles. Com isso, surgiu a oportunidade de viajar para Nigéria. A princípio, lá, na Nigéria, sofri um pouco com as implicações culturais de mudança de costume. No entanto, com o passar do tempo, fui assimilando tudo, procurando entender. Nesse meio tempo, nunca quis ser um deles, eu sempre quis ser eu mesmo, mas com uma visão de amizade, conluio, de estreitamento de relacionamentos através das iniciações. Também respeitando de todas as formas aquele modo de viver, sem fazer perguntas indiscretas, mas participando daquela formalidade, do protocolo, da etiqueta que o iorubá tem. Aqui, no Brasil, essa finesse yorubá se perdeu em razão de muitas situações disparatadas, que fez que o candomblé perdesse isso".

Branco ou Negro

"O fato de a gente ser branco nunca me atrapalhou em termos religiosos. Eu me sinto muito bem exercendo o sacerdócio de uma religião de origem africana. Agora, havia curiosidades. Ou seja, quando as pessoas vinham me consultar ficavam curiosas, esperavam encontrar um negão de dois metros, vestido em trajes africanos e usando equete na cabeça. Se houve rejeição ao fato de eu ser branco, ela foi velada, não foi direta. Mas, isso, hoje, não existe mais essa distinção. Até porque existem muitos babalorixás e yalorixás que são brancos".

Pierre Verger I

"Então, fui estudando a obra de Pierre Verger (etnólogo francês, nascido em 1902, autor de diversos livros sobre religiosidade negra, radicado em Salvador desde os anos 1950 e que morreu em 1996). Sua obra foi importante e aprendi muito com ele. Eu gostava da forma como ele, um estrangeiro, se comportava diante daquelas pessoas negras em Salvador... ele tinha o apreço por elas sem deixar de ser Pierre Verger... isso me encantou, essa atração inteligente, espontânea, genial, comportamento diante de outros povos... porque as diferenças são muito marcantes... quando você está na Nigéria, você tem que compartilhar, você abandona uma parte de si... isso foi fundamental para mim, principalmente esse encontro com Verger foi fundamental".

Pierre Verger II

"Ele foi me apresentado por Alberto Santana, do famoso terreiro Axé Opô Afonjá, de Salvador. Tivemos uma identificação logo, tivemos um bom trânsito um com o outro. Toda vez que eu ia a Salvador, ele me dava maços de fotografias em preto e branco de Salvador dos anos 1950. Também eram fotografias da África, do culto de Salvador... atrás das fotos tem o carimbo Pierre Verger".

Iniciado como Babalaô

"Foi iniciado como babalaô no final década de 1980, na África. A iniciação ocorreu num momento de certa maturidade psicológica ao culto. Isso foi realmente muito bom. Mudou radicalmente minha vida em termos absolutos. Iniciação intelectual rigorosa. Na verdade, ele não deixa de aprender, ele estuda continuamente todo aquele conhecimento do sistema de Ifá através do comportamento. Esse sistema é rigoroso. Tem outros mestres do Ifá africano que fazem espécie de supervisão do conhecimento que você adquire. Então, às vezes, os mestres vêm ao Brasil comprovar se você está apto para o cargo. Porque existem graduações no babalaô... no dia que você é consagrado, é babalaô como os mais velhos. Mas, agora, em termos de conhecimento, há graduações. Isso com o respeito que você adquire, com as oportunidades e também com o odu que você traz. Ifá diz que não adianta aprender coisas que você não vai aplicar. Alerta para isso, para o excessivo e para as coisas retóricas e inúteis em nossa vida".

Ato de Escrever

"O que me move a indisciplina. Eu tenho dificuldade de manter a disciplina ao escrever... Eu não tenho horários... Eu tenho muitas ideias e muito material para trabalhar essas ideias.... Eu não me considero escritor e sim autor. O escritor, aquele que tem total domínio da língua materna. Eu sou autor. Assim como quem escreve a bula de remédios. Também é autor. Quem escreve um livro para mim é autor. Eu vejo que, no Brasil, temos grandes escritores. Como todas as coisas geniais, porém, são poucos os geniais".
Obras

"Em meus livros, eu adentrei um pouco pela etnologia, pelo estudo do idioma yorubá, que é a língua dos orixás. Considero um belo trabalho meu livro 'Guia prático a língua iorubá' em quatro idiomas. Ele dá representação do estudo e prática da língua yorubá. Um livro, depois de publicado e comercializado, não pertence mais ao autor, o livro é de todo o mundo... ele pode chegar nas mãos de uma prostituta, do político, do estudante... alguém vai esquecê-lo no metrô, barcas, avião, sei lá onde vai parar... então, não é mais do autor, do escritor... se ele estartou, não fica preso..."

Vaidades

"Eu não tenho essa preocupação, assim: 'ah, vou escrever isso e aquilo'. O autor tem sempre uma esperança de sucesso. Ele é vaidoso, todo mundo o é, ele quer ser reconhecido pelas pessoas, pelos leitores... nós, autores, temos essa vaidade..."

Terreiro

"Há 25 anos, eu instalei meu terreiro, aqui, no Estácio, na região chamada 'Pequena África'. Na época, havia sido um terreiro de senhora de Oyá, que havia falecido. Tive que fazer algumas cerimônias fúnebres para trabalhar. Isso foi em 1992".
Objetos

"Tenho uns 200 objetos africanos, resultantes de minhas viagens à África, onde, em geral, vou para cursos e participar de cerimônias religiosas. Eles são de madeiras, bronze, marfim, alguns eu ganhei e a grande maioria eu comprei... todos os apetrechos dos orixás da minha casa são de origem africana. Aqui, foi um dos primeiros terreiros no Brasil a cultuar Oduduwa e Olokum. Oduduwa é um deus mitológico yorubá que participou da formação do mundo. Já Olokum é dono dos oceanos. A grande maioria das casas de santo não tem esses orixás. Isso nos dá destaque, claro. Vários sacerdotes nigerianos visitaram nossa casa e confirmaram como um local de origem yorubá. Eles se reconheceram nessa casa, com seus apetrechos africanos, seus valores culturais, as suas práticas... eles, com certa regularidade, nos visitam".

O Professor

"Em 1994, foi participar de um congresso em Cuba. Nesse congresso, eu conheci algumas pessoas, fiz amizades com elas. Então, fui chamado para ir à Universidade de Cuba. Me convidaram logo para ser professor. Como teste, fizeram uma prova curricular e uma prova de aula que não durou 15 minutos. Pediram logo que parasse, pois estava aprovado. Me perguntaram se queria participar do corpo docente da casa. Aceitei na hora. Eu dou aula de religiões afrobrasileiras para o mestrado em antropologia sociocultural. Em Cuba, aprendi com muitos deles como atuar para se fazer frente à engenhosidade da vida, vi a capacidade deles, a engenhosidade em inventar o amanhã, inventar o outro dia... conheci alguns babalaôs cubanos de alto gabarito".

Livros Novos

"Estou terminando uma gramática iorubá-português, com quase 400 páginas. Também estou terminando um livro de folhas que já tem 600 laudas digitadas. A obra falará sobre a folha, seu nome científico, popular, uso em magia, nos cultos afro... considero que foi um grande trabalho. Eu começo a trabalhar forte e, se a cabeça não der, eu paro. Vou naquilo que posso produzir".





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