terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mostra no MIS com 500 itens ilustra trajetória do cineasta Stanley Kubrick – Por Cassiano Elek Machado

Um machado usado por um célebre psicopata internacional está neste momento encaixotado numa sala do Jardim Europa. 

A partir do próximo dia 11, filas de pessoas deverão se acotovelar para ver a peça, numa vitrine de um museu de São Paulo.

Com essa arma um sujeito chamado Jack, que trabalhava muito e se divertia pouco, arrebentou a porta de um quarto de hotel abandonado e tentou matar sua mulher, no fim da tarde de uma segunda gelada de inverno.

O instrumento perfurocortante, empunhado pelo ator Jack Nicholson no filme de terror "O Iluminado" (1980), é só uma das centenas de itens de uma exposição que promete tirar do escuro boa parte dos cinéfilos da cidade.

A mostra "Stanley Kubrick", que abre daqui a dez dias, no Museu da Imagem e do Som (MIS), tem mais de 500 peças ligadas à obra do cineasta americano.

A diversidade dos elementos da exposição, desde um par de cândidos vestidinhos infantis até um capacete com a inscrição "Nascido para matar", ilustra uma característica central de Kubrick (1928-1999): o cineasta completo.

Exposição de Kubrick

Foi isso o que disseram sobre ele figuras como Martin Scorsese, Luís Buñuel ("'Laranja Mecânica' é o único filme sobre o real significado da vida moderna") ou Steven Spielberg ("Ele foi o grande mestre. Não copiou ninguém enquanto todos tentávamos atrapalhadamente imitá-lo").

Criada na Alemanha, em 2004, e já apresentada em dez cidades do mundo, a mostra paulista pretende enfatizar as diferentes frequências nas quais Kubrick operou.

trabalho e paixão

"Em cada filme, em cada gênero, seja comédia, ficção científica ou épico, ele conseguiu criar um tensão diferente", opina o diretor do MIS, André Sturm, que trouxe a mostra ao Brasil. 

Ele próprio participou da criação do desenho das 11 salas principais, cada uma dedicada a um dos filmes de Kubrick, com luz e expografia inspirados na obra em questão.

A filmografia completa (exceto "Medo e Desejo", de 1953, renegado pelo próprio Kubrick) será exibida no MIS a partir do dia 11, como tira-gosto para a homenagem a ele na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Cunhado de Kubrick e produtor de alguns de seus filmes, o alemão Jan Harlan virá ao país para uma aula e a exibição de seu "Stanley Kubrick: a Life in Pictures" (Uma Vida em Imagens).

"A exposição irá mostrar quanto trabalho e paixão há por trás de cada filme dele", diz Harlan à Folha. "Esta parece uma declaração banal, aplicável a qualquer grande criador, de Mozart a Monet, mas é este fogo que marcou a subjetividade de seus filmes."

Se para o público geral devem chamar mais atenção elementos cenográficos de filmes como "2001" (um dos macacos estará presente), "Lolita" ou da obra final do cineasta, o lúbrico "De Olhos Bem Fechados", para Harlan um dos destaques da mostra é a documentação sobre dois projetos não realizados: um filme sobre o Holocausto ("Aryan Papers") e um longa sobre Napoleão Bonaparte.

Sturm, cujo Kubrick predileto é "Laranja Mecânica", aposta que, todos os dias, quando chegar ao trabalho encontrará filas de visitantes. "Pretendo que esta mostra seja para o MIS o que a de Rodin foi para a Pinacoteca", diz ele. 

"Não me parece tão difícil. Kubrick transcendeu o cinema. Ele criou ícones da cultura ocidental, presentes até em camisetas e ímãs de geladeira do mundo todo."

Serviço:

STANLEY KUBRICK


ONDE
Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158, tel. 0/xx/11/2117-4777, São Paulo)

QUANDO

a partir do dia 11 de outubro; venda de ingressos a partir de hoje no MIS ou no site:

OBRAS EM EXIBIÇÃO

Comentários do crítico Cássio Starling Carlos

1955 - A Morte Passou Perto - O cotidiano de um boxeador em Nova York, mostrado com um realismo seco na contramão dos ilusionismos de Hollywood

1956 - O Grande Golpe - O assalto a um hipódromo converte-se em estudo sobre ambição nesse policial; equilíbrio do estilo visual com uma tensão que nunca cede

1957 - Glória Feita de Sangue - Primeiro ataque anti-bélico do diretor, narra a brutalidade militar na 1ª Guerra com câmera preocupada em não embelezar o horror

1960 - Spartacus - Originalmente veículo para Kirk Douglas, Kubrick faz do épico um espetáculo sobre o que mantém e depois destrói os impérios

1962 - Lolita - Depois do grandioso, retorno ao intimismo com uma crônica sobre desejo e repressão em que os atores brilham tanto quanto a direção

1964 - Doutor Fantástico - Ao trocar a seriedade pela comédia, o cineasta capta com mais desfaçatez a insanidade da crença no progresso e encontra em Peter Sellers um intérprete ilimitado

1968 - 2001, Uma Odisseia no Espaço - Kubrick reinventa a ficção científica nessa ópera magnífica e enigmática, na qual o homem perde seu lugar de centro do universo ao se defrontar com a máquina e o cosmos

1971 - Laranja Mecânica - Ao voltar à Terra, o cineasta retoma seu pessimismo com esse pesadelo em que a bizarrice dos cenários e a deformação da imagem projetam um futuro cada vez mais parecido com o presente

1975 - Barry Lyndon - Filme de época no qual a obsessão do diretor com a fotografia, que aqui alcança a perfeição pictórica, chama mais a atenção do que o percurso negativo de seu protagonista

1981 - O Iluminado - Kubrick aborda o terror examinando os efeitos da solidão; real e alucinação se confundem na tela, enquanto os limites do espectador são testados por um cineasta tão perigoso quanto o protagonista

1987 - Nascido para Matar - Em vez de outro filme sobre o Vietnã, Kubrick, desmonta a disciplina militar que leva da ordem à destruição; ele experimenta a forma visual dos games para sondar um terreno inexplorado

1999 - De Olhos Bem Fechados - Kubrick usa o poder de sedução de um par perfeito envolvendo-os num jogo de máscaras para desmascará-los depois, culminando com perda de inocência da plateia






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