segunda-feira, 24 de março de 2014

Líder islâmico recusa ideia de "religião de fanáticos" – Por Abdool Vakil

De raridade nos anos 1950, o islão passou a ser visto como "religião de fanáticos" após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, estereótipo que o líder da Comunidade Islâmica portuguesa atribui ao desconhecimento religioso.

"Em 1956, quando vim para cá, era uma raridade. As pessoas estranhavam e faziam-me perguntas curiosas porque jejuava, não comia carne de porco nem bebia vinho. O islão era uma coisa nova", recordou à agência Lusa Abdool Vakil, fundador e líder há mais de 25 anos da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Em 1974, os muçulmanos em Portugal continuavam a não ultrapassar as duas dezenas. A comunidade islâmica de Lisboa tinha já sido registada no notário, mas não tinha reconhecimento como organização religiosa.

As festas religiosas eram feitas inicialmente na casa da família de Abdool Vakil, posteriormente na cave da residência oficial do embaixador do Egito e mais tarde num espaço cedido pelo Governo próximo da zona do Príncipe Real, em Lisboa.

A mesquita central de Lisboa foi inaugurada em 1984. Por essa altura, a comunidade era já estimada em mais de quatro mil pessoas (Censos de 1981), engrossada sobretudo por gente proveniente das antigas colónias portuguesas.

A comunidade está hoje estimada em 55 mil pessoas, segundo Vakil. No Censos de 2011, foram cerca de 20.600 os que se identificaram como muçulmanos. As mesquitas e os locais de culto são mais de meia centena em todo o país e estão localizados em ginásios, edifícios de habitação, garagens ou apartamentos.

Metade da comunidade é composta por africanos, na maioria da Guiné-Bissau, a que se seguem os oriundos da Somália, Sudão e Costa do Marfim. A outra metade é composta por gente de origem indiana, egípcios, sauditas, iraquianos, marroquinos e argelinos.

Num país de maioria católica, Abdool Vakil afirma nunca se ter sentido vítima de "islamofobia", mesmo depois dos atentados terroristas reivindicados pela Al-Qaida ao World Trade Center de Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001.

Para Abdool Vakil, é o desconhecimento que faz com que ainda hoje muitas pessoas pensem "que o islão é uma religião de fanáticos, de intolerantes", que não aceita nenhuma outra religião.

"As religiões são todas válidas, não devemos discriminar. Cada um tem a sua e Deus é que vai julgar quem tem a verdadeira religião", considerou Abdool Vakil, citando uma passagem do livro sagrado dos muçulmanos, o Corão: "Tu praticas a tua religião e eu pratico a minha". "Nesta sociedade, as pessoas não podem pensar de forma fanática sobre a religião, tem que haver o tal 'live and let live'[vive e deixa viver]".

Para isso, defendeu Abdool Vakil, é preciso "ter noção do que são as outras religiões" e, nesse sentido, considerou que seria muito importante que nas escolas houvesse uma disciplina sobre religiões.

"Não é para converter ninguém, mas é para as pessoas saberem o que são as outras religiões", disse, explicando que não tem sido possível conseguir juntar os 10 alunos por escola exigidos por lei para que a religião muçulmana seja ensinada nas escolas públicas.

Uma falha que tem procurado compensar com a escola muçulmana (madrassa) que existe na Mesquita de Lisboa, onde se ensina língua e cultura árabe e religião, aulas que têm suscitado interesse e resultado "num número significativo de conversões".

Sobre o caminho feito por Portugal em matéria de liberdade religiosa em 40 anos de democracia, Abdool Vakil destacou a aprovação da lei de liberdade religiosa (2001) e as boas relações existentes com a Igreja Católica e demais religiões.

"Tínhamos, de facto, liberdade religiosa e era bom regulamentá-la e ter uma lei, que hoje é considerada uma lei modelo", disse.


Ainda assim, reconheceu que há sempre margem para melhorar. Depois de 25 anos à frente da Comunidade Islâmica de Lisboa, Abdool Vakil disse querer concluir as obras na Mesquita de Lisboa para sair de cena.



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