segunda-feira, 24 de março de 2014

Respeitarás a sexualidade do próximo e não discriminarás - Por Marcelo Santos

A peleja dos homossexuais que querem exercer sua religiosidade sem ser discriminados.

Há algo muito caro ao advogado carioca Ricardo Pinheiro, 40 anos. Trata-se de sua espiritualidade. Ele diz que a sua vida seria impraticável sem a fé. E que assim pavimentou o caminho na carreira em defesa dos direitos humanos e no ativismo como líder comunitário. Nascido e criado em família protestante, Ricardo abraçou valores do cristianismo e fez deles sua bandeira. Chegou a estudar Teologia e liderou jovens, discutindo textos bíblicos em praças públicas. A chegada da maioridade, porém, assim como nos anos seguintes o dilema da orientação sexual passaram a ocupar espaço importante: fugir da realidade ou assumir a homossexualidade. Ele decidiu que não se tratava de enfrentar a si mesmo e seu dilema, mas o preconceito.

Na época, Ricardo frequentava uma igreja presbiteriana no Rio de Janeiro, e começou a colecionar as antipatias dos pastores da região, que o viam como um semeador de “confusões”. Recebeu ameaças, mas foi adiante no propósito de seguir anunciando o que acreditava ser a mensagem cristã “que liberta verdadeiramente o ser de um homem, de uma mulher”. Aos 32 anos, deixou para trás sua antiga igreja por não querer mais conviver com preconceitos e intolerâncias pregadas e ensinadas de púlpito. Mas ressentia-se de se afastar das atividades mais banais, como os cultos e os estudos bíblicos.

Foi assim que se aproximou da Igreja Episcopal Anglicana, que tem causado polêmica por sua posição mais respeitosa às uniões homoafetivas. A instituição foi a primeira a se pronunciar oficialmente em apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que equiparou, em 2011, as uniões homoafetivas às demais uniões estáveis, o que culminou nas mudanças feitas por meio de resolução do Conselho Nacional de Justiça (175/2013), autorizando o casamento civil com base nos princípios constitucionais de igualdade e de não-discriminação. 

“Fui vendo que, ao contrário do que a Igreja pensa e vê, por não querer enxergar, a sexualidade faz parte de uma individuação que não é e não pode ser formatada. Faz parte da beleza da diversidade criada.”

Hoje, Ricardo diz estar de bem consigo mesmo. “Abracei a fé que não teme o diferente de mim, nem o demoniza.” Tornou-se líder do movimento Episcopaz, pastoral de direitos humanos ligada à paróquia da Santíssima Trindade, na Diocese Anglicana do Rio. 

“Defendemos a inclusão numa perspectiva ligada à diversidade”, resume. Assim como ele, não são poucos os homossexuais que desejam vivenciar sua espiritualidade. Ao contrário do que faz parecer o truculento discurso de alguns líderes religiosos, para boa parte da comunidade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros a fé é fundamental.

Igrejas inclusivas

A Igreja Evangélica possui curiosidades. Se entre os cristãos os evangélicos são os mais radicais no que chamam de “defesa da família tradicional”, nos parlamentos ou nas telas da TV, foi justamente entre os protestantes que nasceu o fenômeno das igrejas inclusivas, comunidades lideradas por homossexuais e que carregam as mesmas características de outras denominações pentecostais. Com reuniões espontâneas, músicas e orações idênticas a qualquer outra igreja evangélica, estima-se que 10 mil fiéis, entre héteros e gays, frequentem os cerca de 40 templos pelo país.

O movimento nasceu em 1968, em Los Angeles. Coube ao reverendo Troy Perry, um ex-pastor batista norte-americano, descasado e com dois filhos, reunir 12 pessoas para o primeiro culto da Metropolitan Community Churches, as Igrejas Metropolitanas que atualmente reúnem 43 mil pessoas em 37 países. No Brasil, há oito templos da denominação evangélica, com aproximadamente 500 pessoas.

Entre os fiéis católicos há também esperança de que o discurso mais contemporizador do argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Franscisco, possa aproximar a comunidade LGBTT (de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) das paróquias. Em julho passado, após a Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro, Francisco disse: “Se alguém é gay e busca o Senhor com sinceridade, quem sou eu para julgá-lo?”.

Apesar da repercussão, o papa apenas seguiu o catecismo. A Igreja Católica não vê a homossexualidade como uma aberração ou possessão demoníaca e prevê ainda que as pessoas devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Evitando todo sinal de discriminação injusta. 

“No atual pensamento da Igreja, os homossexuais devem viver em castidade. Porém isso não é um dogma, ou seja, uma verdade absoluta. Quer dizer, é um campo em que as coisas podem mudar. Assim como mudou e vêm mudando temas como a escravidão, o papel da mulher, além de outros, como o celibato dos padres, que são frequentemente questionados”, explica Lucas Paiva, 28, um dos líderes do Diversidade Católica, um grupo que acredita ser possível viver duas identidades aparentemente antagônicas: ser católico e ser gay.

O IBGE ajuda a confirmar isso. Entre os casais homoafetivos contados no Censo de 2010, 47,4% se declararam católicos, enquanto 20,4% diziam não possuir nenhuma religião.

O Vaticano tem percebido esse rebanho e incluiu perguntas sobre famílias homoafetivas no questionário enviado às Conferências Episcopais para o documento preparatório da Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo de Bispos, que será realizada em outubro. 

“Apesar de não acreditar em uma alteração doutrinal agora, creio que a mudança no tom e um aprofundamento da ação pastoral para acolhida de gays, divorciados, mães e pais solteiros poderá trazer bons frutos e derrubar os argumentos dos preconceituosos­ que agem em nome de Deus. Isso de condenar os outros se apoiando em Deus é para mim o mais grave problema. Um grande pecado”, diz Lucas.

De família religiosa, ele viveu por um tempo recluso de sua relação com a igreja. Em 2009, no entanto, sentiu o que chama de “reflorescimento da fé”. A experiência levou o jovem gerente de call center a procurar as reuniões do Diversidade Católica, que em São Paulo acontecem na Casa de Clara, um centro franciscano localizado no bairro da Bela Vista, na região central. 

“Existem muitas pessoas que vivem escondidas, infelizes, porque se sentem rejeitadas. Nosso grupo, além de ser um espaço para encontro e expressão, é também um lugar de acolhida. Sobretudo para pessoas machucadas e com dificuldade de aceitação.”

Paralelamente, representantes de religiões, especialmente as cristãs, e movimentos gays, vivem em clima de tensão. Em 2011, a organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em uma resposta aos constantes ataques que vinha recebendo de religiosos e, sobretudo, a ação de fundamentalistas que bloqueavam uma legislação mais inclusiva e igualitária, saiu às ruas com imagens erotizadas de santos de devoção católica. Sob o tema: “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia!”, a parada cobrava bom senso e respeito aos direitos humanos. A estratégia levou à fúria personalidades controversas, como o pastor televisivo Silas Malafaia, líder das Assembleias de Deus Vitória em Cristo: 

“Os caras na Parada Gay ridicularizaram símbolos da Igreja Católica e ninguém fala nada. É pra Igreja Católica ‘entrar de pau’ em cima desses caras, sabe? ‘Baixar o porrete’ em cima pra esses caras aprender”, vociferou em seu programa de TV.

Mais comedido, o cardeal dom Odilo Scherer publicou no jornal da Arquidiocese de São Paulo um artigo dizendo-se entristecido com o que considerou “deboche”. Lucas Paiva também desaprovou a ação: “Apenas serviu para reforçar um clima de rivalidade entre os gays e as religiões”.

Tolerância

Na opinião do teólogo Carlos Bregantim, 58, líder do Caminho da Graça, grupo protestante alternativo, a homofobia nada tem a ver com os escritos da Bíblia. “A comunidade de Jesus de Nazaré é a do amor. Não tenho dúvidas de que homoafetivos ou qualquer outra pessoa pode ter acesso a Deus.” Para ele, vozes como a de Malafaia ou de parlamentares como o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) não representam a comunidade cristã. 

Pastor há 30 anos, ele conta que em sua congregação há homoafetivos que cooperam na organização dos cultos. “Há pessoas nessa condição em muitas igrejas. Mas, geralmente, elas não têm coragem ou não são encorajadas a se assumir.”

Se entre os cristãos há ainda resistência à homossexualidade, o mesmo não ocorre em religiões como o budismo, espiritismo ou mesmo as religiões afro-brasileiras. “Claro que são pessoas diferentes e não existe um cânone na umbanda ou candomblé. Mas nunca presenciei nenhum ato discriminatório nos terreiros, e já vi pai-de-santo incorporar entidades homossexuais”, relata a professora Maria Elise Rivas, da Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. Segundo ela, as religiões afro-brasileiras possuem diversas entidades bissexuais, conhecidas como Edês. “Há uma perspectiva diferente da ocidental e cristã, que polariza homens e mulheres.”

Pais religiosos, filhos gays

No consultório da terapeuta Edith Modesto, 77, dia sim, dia não, pais a procuram desesperados após descobrir que seus filhos são homoafetivos. “De modo geral, os evangélicos são os pais com maior dificuldade e os que mais sofrem quando descobrem que tem um filho ou filha homossexual. Mas também há católicos ortodoxos que ainda sentem muita dificuldade. Ainda há pais que dizem que o filho tem o demônio no corpo, como se dizia na Idade Média”, relata.

A terapeuta coordena o Grupo de Pais de Homossexuais, iniciativa que começou a partir de sua própria experiência ao descobrir que o caçula de seus sete filhos é gay. Hoje, ela se reúne com cerca de 30 pais no seu consultório e conversa com outras centenas pela internet sobre preconceito e aceitação. 

Entre relatos, gente aflita como a psicóloga evangélica de 54 anos que pensou em suicídio, quando soube que o filho é gay. “Foi como uma punhalada no peito”, conta a mãe, que não quis se identificar.

Edith afirma que, assim como os pais conservadores, filhos homossexuais religiosos geralmente também pensam numa saída definitiva aos seus dramas. “Atendo muitos jovens que pensam em se suicidar. Já fui socorrer um garoto que estava prestes a pular de um viaduto. Ser religioso pode facilitar a auto-homofobia”.

Mesmo que o processo de aceitação em ambiente religioso seja mais penoso, ela não aconselha pais nem filhos a abandonar suas comunidades de fé. 

“A culpa pode ser pior. Acompanhamos a família, tentamos mostrar que a homossexualidade não é escolha, não é doença, nem é um pecado. É uma condição”, argumenta. E, se mesmo assim pais e filhos ficarem reticentes, ela orienta:  “Conversem diretamente com Deus. Deus é amor, pai de todos nós. Independentemente da orientação sexual que tenhamos. O amor vence”.





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