segunda-feira, 24 de março de 2014

Terra é o bem maior da humanidade – Por Jéssica Welma

O cabelo e a barba grisalhos indicam os 76 anos de vida de Leonardo Boff. O teólogo da Libertação e defensor dos direitos humanos e das causas sociais fala com voz suave e sem pressa, mas as palavras têm a força de fazer refletir sobre as relações do mundo. 

Palestrante do Congresso Estadual dos Fazendários, em Fortaleza, na última semana, Boff falou ao O POVO sobre o trabalho desenvolvido no grupo de reforma da Organização das Nações Unidas e sobre os bens comuns da Terra e da Humanidade que precisam ser preservados.

O POVO - Como estão os trabalhos do grupo de reforma da ONU, no qual o senhor atua, especialmente, quanto à Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade?

LB - O trabalho está pronto. É coordenado pelo presidente da Assembleia Geral da ONU Miguel d’Escoto Brockmann (2008-2009), de quem eu fui assessor. Eu, junto com o pensador belga e sociólogo, François Houtart, escrevemos o núcleo teórico, que é uma declaração universal do bem comum da Terra e da Humanidade. 

OP - Qual é o bem comum da Terra e da Humanidade?

LB - São vários. Eu coloquei lá creio que 53 itens. Primeiro, a própria Terra -ela é de todos. Depois, o maior bem é a humanidade, nós, os seres humanos. A relação primeira dos seres humanos é a hospitalidade, com direitos e deveres. Se habitamos todos em uma casa, cada um tem o direito de morar lá, ser aceito e aceitar os outros. Depois, o direito fundamental à alimentação, à água... Um dos bens que coloco é preservar as línguas que estão desaparecendo. A língua é uma visão de mundo, a uma leitura, é uma filosofia de vida. 

OP - A nova espiritualidade que o senhor defende também é parte desse bem comum?

LB - Eu coloco como um dos bens comuns a dimensão espiritual, porque todos os povos tem uma dimensão espiritual. Por isso, os antropólogos dizem que, quando uma cultura amadurece, cria sua aura, sua religião. Nós, brasileiros, não criamos. As religiões que temos são importadas: o cristianismo, o luteranismo... Estamos criando religiões nossas, a Umbanda é nossa, o Santo Daime é nosso. (Nossa religião) vai ser, possivelmente, profundamente sincrética, com elementos do cristianismo tradicional e moderno, espiritismo, tradição evangélica, tradição afro... Isso é uma religião brasileira, solidária, aberta e isso é um bem. 

OP - Quantos países já aderiram ao projeto?

LB - 122 países aderiram e, na frente, a China. É muito importante a China. Conversando com diplomatas chineses, eles dizem: “até agora a globalização teve um rosto ocidental, daqui a pouco vai ter um rosto chinês, nós vamos dar as cartas”. A sede será em Dar es Salaam, na Tanzania (País africano). 

OP - O que ainda falta para a efetivação da Declaração?

LB - Agora é preciso conquistar mais e mais adesões para poder colocar em votação. São 192 representantes dos povos ao todo. O Miguel d’Escoto está correndo o mundo, convencendo presidentes a subscreverem etc. Quando sentirmos que é possível apresentar para votação, iremos submetê-la. Será difícil, porque países que têm direito a veto podem interpor o veto. Queremos fazer uma reforma que não tenha mais vetos, porque são absolutamente antidemocráticos. 

OP - O que há de polêmico para que países vetem os itens?

LB - Há itens lá que são inaceitáveis para as potências, como transformar os orçamentos militares, que são milhões de dólares, em fundos para combater a pobreza, a miséria, e resgatar a devastação da terra, das florestas, dos mares. Eles não aceitam, porque o último argumento é sempre a violência física, ter armas nucleares...





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