terça-feira, 23 de junho de 2015

Comitê por tolerância religiosa – Por Marcus Celestino e Rafaela Mansur


Em meio a diversos atos de intolerância e discriminação relacionados à escolha religiosa, a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac) instalou nesta segunda o Comitê Estadual de Respeito a Diversidade Religiosa. 

O objetivo principal da iniciativa é que o respeito prevaleça entre todas as religiões. Realizada em Belo Horizonte, na sede da Imprensa Oficial, a cerimônia contou com vários representantes religiosos.

“O que as religiões têm em comum é que todas defendem a paz, a busca da convivência e o respeito à vida. Nós queremos traduzir isso em algumas ações, mostrar que em Minas podem conviver pessoas que em outros lugares se matam, supostamente em nome de Deus”, comentou Nilmário Miranda, secretário de Estado de Direitos Humanos. Ele frisou que as ações virão, em um primeiro momento, por meio da distribuição de cartilhas e peças publicitárias.

Presente no evento, a secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo, ressaltou que educação e respeito religioso são indissociáveis. “A Educação não poderia se furtar de participar, então queremos contribuir com essa agenda, no sentido de que nosso Estado possa dar exemplo para o país”, frisou. Ela informou que ainda é cedo para saber qual será o papel da pasta no comitê.

Aprovação. Os vários representantes religiosos que estiveram no evento aprovaram a concepção do comitê. Presidente do Instituto Histórico Israelita Mineiro e diretor da Federação israelita de Minas Gerais, Jacques Ernesto Levy afirmou que a atitude colabora para o respeito ao Estado laico. “Acredito que o comitê contribua para o respeito das minorias e da liberdade de expressão que cada um gostaria de ter na vida”, denotou.

Responsável pela única mesquita de Minas Gerais, no bairro Mangabeiras, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, o sheik Mokhtar el Khal diz não sentir preconceito com relação ao islã no Brasil, mas também considera válida a implantação do comitê. “O mundo muçulmano é muito grande. Mas, como os brasileiros ainda não conhecem a comunidade islâmica o bastante, o comitê é importante”, ressaltou.

Disque 100

Entre 2011 e 2014, 504 denúncias de discriminação religiosa foram feitas em todo o Brasil pelo Disque 100. Gratuito, o serviço recebe telefonemas que relatam diversos tipos de atos violentos.

Minas é terceiro no ranking do país

Em Minas Gerais, entre 2011 e 2014, 35 casos de discriminação religiosa foram denunciados via Disque 100, segundo o estudo: “Diversidade Religiosa: Construção e Desafios”, da Assessoria de Direitos Humanos e Diversidade Religiosa da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos. O Estado fica atrás apenas de São Paulo (101) e Rio de Janeiro (99). 

A maioria das vítimas (40%) é do sexo feminino, enquanto a maior parte dos suspeitos (36%) é do sexo masculino. Em relação ao tipo de violência, a psicológica (45%) predomina, seguida por física (19%), discriminação (22%) e violência moral (14%). De acordo com a Polícia Civil, como muitas pessoas não registram a ocorrência como intolerância religiosa e o diagnóstico surge apenas no decorrer da investigação, a incidência é ainda maior.

Preconceito fortalece candomblé

A criação do Comitê Estadual de Respeito a Diversidade Religiosa é oportuna, devido aos recentes casos ligados à intolerância religiosa, segundo o pai de santo Erisvaldo Pereira dos Santos. 

“O comitê tem o papel de discutir a necessidade do diálogo e vai nos ligar com as nossas diferenças”, disse. Segundo ele, que já teve depredado o seu terreiro de candomblé em Contagem, na região metropolitana, casos como o de Kayllane Campos, que levou uma pedrada na cabeça quando voltava de uma cerimônia, no Rio de Janeiro, fortalecem a religião. “Esses casos tendem a nos unir mais”.

Relembre casos recentes de desrespeito religioso

Vandalismo

Pelo menos quatro igrejas foram pichadas entre a madrugada e a manhã do último dia 14, em Itabira, na região Central de Minas Gerais. De acordo com a Polícia Civil, as investigações continuam, mas o caso é apurado em sigilo. Por meio de câmeras, os suspeitos já estariam sendo identificados.

Depredação

Em Uberaba, no Triângulo, trinca no vidro de proteção e marcas de pancadas foram observadas na sepultura do médium Chico Xavier, no Cemitério São João Batista, na última quinta-feira.  A PM informou que a família não quis prestar queixa. A Polícia Civil investiga se há motivação religiosa.

Apedrejamento


Membros de várias religiões se reuniram em ato contra a intolerância religiosa na manhã deste domingo na região norte do Rio de Janeiro. A manifestação ocorreu uma semana após a estudante Kayllane Campos, 11, que estava vestida com roupas de candomblé, levar uma pedrada na cabeça.



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