sexta-feira, 18 de outubro de 2013

'A independência do Brasil se decidiu na Bahia', afirma Laurentino Gomes – Por Danutta Rodrigues

Há quem diga que a independência do Brasil foi conquistada às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, à base do grito. 

Contrapondo a história oficial da maioria dos livros didáticos, o escritor José Laurentino Gomes afirma que "se não fosse a luta pela independência na Bahia, não existiria independência do Brasil". 

Em entrevista ao G1, segundo o autor de 1808 e 1822, "a independência na Bahia mostra que o 'dia do fico', 'o grito do Ipiranga', são mitos". A mais recente obra do escritor, 1889, também aborda a história do Brasil no século XIX.

O novo livro do paranense fala sobre o processo da proclamação da república do país, e é sobre esse assunto, entre tantos outros, que o autor irá discutir na Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece de 23 a 27 de Outubro, no Recôncavo Baiano. 

Ao lado do escritor Eduardo Bueno, Gomes irá compor a mesa Clientes, Coronéis e a República, que será realizada na quinta-feira (24), às 19h, com mediação do professor Jorge Portugal. 

Em entrevista ao G1, Laurentino Gomes confessa a admiração por Cachoeira, por José Bonifácio de Andrade Silva e pelo ofício exclusivo de escritor. Confira entrevista na íntegra:

A sociedade está se perguntando se é essa a república que queremos"
Laurentino Gomes

G1 - Em "1889", você fala sobre o processo da proclamação da República do Brasil. De fato, você acredita que essa “república” foi instituída ou ainda há um longo percurso para chegar ao status de uma verdadeira república? 

Laurentino Gomes - Essa pergunta é muito interessante porque a construção do estado republicano no Brasil é uma obra inacabada. O Brasil proclamou uma república que prometia ampliar o direito do voto, a participação popular no poder, distribuir riquezas, construir cidadania e a república falhou com essa promessa. Logo depois se tornou uma ditadura com Marechal Deodoro, então, a mesma aristocracia rural que mandava na monarquia continuou dando as cartas na república. O regime mudou de nome, mas a forma continuou a mesma. Os mesmos coronéis que mandavam na monarquia mandavam na república. Nós continuamos assim até 1984, que eu considero uma segunda proclamação da república. O povo foi para as ruas pedir eleições diretas. Não era um general em cima do cavalo, era um povo pedindo a república. Nós conseguimos algo inédito, que é manter uma democracia por 30 anos. Atualmente com a onda de manifestações, a sociedade está se perguntando se é essa a república que queremos, se são essas pessoas que nos representam. Nós estamos discutindo as regras do jogo para depois começar a jogar. As instituições têm que estar preparadas para lidar com essas manifestações porque elas fazem parte da democracia. Se elas se transformarem em um voto consciente, já vai ter um resultado positivo.

G1 - Seus últimos três livros abordam momentos importantes do Brasil no século XIX. Qual a motivação para escrever especificamente sobre esse período?

Laurentino Gomes - Eu sempre gostei muito de história. Eu fui repórter, editor de jornais ao longo de mais de 30 anos. Eu sempre me interessei pela história do Brasil. Foi ali naquele período que plantamos a semente, a forma como o Brasil foi construído. Em 1997 eu faria uma série de suplementos sobre a história do Brasil para uma revista e um deles seria a vinda da corte para o Rio de Janeiro. Mas acontece que o projeto não foi adiante, como se diz no jornalismo, “a pauta caiu”, mas eu transformei a minha parte em um livro-reportagem e segui com as pesquisas. Assim, em 2007 publiquei 1808, um livro de história que, para minha surpresa, virou um best-seller. No ano seguinte eu saí da editora em que trabalhava e resolvi me dedicar exclusivamente ao ofício de escritor. Desde então eu sou um escritor full-time.

Nenhuma outra região lutou tanto pela independência do Brasil como os baianos"
Laurentino Gomes

G1 - A importância do positivismo na proclamação da república é evidente na bandeira brasileira com a frase “Ordem e Progresso”. Quais as influências positivistas que nortearam a proclamação em 1889?

Laurentino Gomes - Até a véspera da proclamação, os grupos estavam divididos no Brasil. Um grupo admirava a república norte-americana e outro admirava o positivismo de Augusto Comte. Ele [Comte] defendia que a humanidade passaria por três estágios de evolução. Um religioso, místico, mais tribal, na qual as pessoas veriam o poder como uma obra divina, o rei era uma obra de Deus e deveria ser obedecido; o segundo seria a vontade do indivíduo acima da questão religiosa; o terceiro estágio é o positivo, que pelo uso da razão seria possível estudar e traçar metas de reformas da sociedade. O indivíduo começar a traçar a história. Então, a república fazia parte desse terceiro estágio. Só que Comte defendia que teria que ter uma elite militar, intelectual, para tutelar a população até ela ser capaz de traçar o próprio destino. É tão forte essa ideia, que está na nossa bandeira. Esse ideário positivista permeia a história republicana brasileira. Por isso que o Brasil tem uma história autoritária muito grande na república que seduz a área militar. Ainda existem muitas pessoas que defendem que uma elite deve tutelar o povo. Numa república democrática, quem organiza, quem estrutura o país é o povo. O que nós temos que fazer hoje é não perder a esperança. A única forma que temos para construir um país decente é por meio da democracia. Precisamos qualificar a sociedade brasileira, senão é uma perspectiva monárquica do poder.
 
G1 - A Flica acontece em uma cidade de extrema importância para a Bahia, que é Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e que foi palco de lutas pela independência. O que significa pra você participar de um evento literário em uma cidade que tem tanta história pra contar?

Laurentino Gomes - Para mim, voltar a Cachoeira vai ser emocionante. Eu estive por lá para pesquisar para o 1822. Eu escrevi um capítulo inteiro sobre a guerra da independência na Bahia. Nenhuma outra região lutou tanto pela independência do Brasil como os baianos. Se não fosse a luta pela independência na Bahia, não existiria independência do Brasil. O Brasil teria se fragmentado e até o próprio D. Pedro não conseguiria manter a independência. A luta tudo ou nada. A independência do Brasil se decidiu na Bahia, no Recôncavo Baiano. Estou voltando para discutir história. Vai ser muito bom. É um lugar muito charmoso. Para mim é uma das cidades mais charmosas do Brasil.
 
Para mim, voltar a Cachoeira vai ser emocionante"
Laurentino Gomes

G1 - Alguns historiadores declaram que a verdadeira independência do Brasil foi a independência da Bahia. Qual a sua opinião a respeito?

Laurentino Gomes - A história da independência na Bahia desmente vários mitos. A maioria dos livros não cita Joana Angélica ou sequer cita a Batalha do Pirajá. A independência na Bahia mostra que o “dia do fico”, “o grito do Ipiranga”, são mitos. Além disso, a luta na Bahia também desfaz aquela ideia de que o brasileiro é pacífico. O país lutou para se tornar uma nação soberana. A importância do Brasil não se resume ao eixo Rio-São Paulo-Brasília, e os livros didáticos sobre a história do Brasil colocam a importância apenas no eixo centro-sul. Não é bem assim.

G1 - Para você, quem é o grande personagem da história do Brasil no século XIX?

Laurentino Gomes - O meu preferido é o José Bonifácio de Andrade Silva. Era um homem muito culto para o Brasil da época. Tinha uma experiência de vida fantástica. Acreditava na ciência, pesquisa, educação, testemunhou a revolução francesa de perto e, principalmente, ele percebeu que nesse país grande, complexo, a única forma de manter um Brasil unido era uma monarquia constitucional. Mas foi a solução daquela época. Ele defendia o fim da escravidão, já propunha a transferência da capital para o planalto central. Ele tinha uma visão estratégica muito grande do Brasil. Poeta, bom piadista, dançava em cima da mesa até de madrugada, é um personagem interessante como estadista e também como ser humano.

G1 - Ao lado de Eduardo Bueno, você irá discutir sobre Clientes, Coronéis e República. O que esperar desse debate?

Laurentino Gomes - Eu acho que vai ser um debate divertido porque Eduardo é muito engraçado, é um iconoclasta, mas eu acho que nós compartilhamos a visão do que foi a república, essa república de cima pra baixo, os mitos que precisam ser derrubados, uma compreensão mais exata do Brasil. A nossa compreensão é parecida e vai ser muito bom.







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