sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Nem Sexta-feira Santa, nem "Sexta-feira 13" – Por Luiz Antônio Araujo

Não existe religião sem ritual. Para os fiéis das mais variadas crenças, reencenar um acontecimento perdido no tempo é uma forma de reforçar o vínculo com uma religião, uma comunidade, uma nação ou uma cultura. 

Para um muçulmano pouco informado sobre o cristianismo (sim, um indivíduo de fé islâmica pode passar uma vida inteira sem encontrar pessoalmente um único cristão, e o mesmo acontece com praticamente todas as religiões), a tradicional procissão do Morro da Cruz, na Páscoa, em Porto Alegre, pode parecer incompreensível. Esse mesmo muçulmano pode considerar sangrento e gratuito o hábito dos católicos filipinos de se deixar pregar em cruzes na Sexta-feira Santa.

Para nosso olhar brasileiro, algumas cenas do feriado muçulmano da Ashura parecem ter saído de um filme de horror. Seria um equívoco, porém, concluir que os muçulmanos xiitas, alguns dos quais têm o costume de ferir severamente os próprios corpos nesse dia, sejam neuróticos ou masoquistas. 

Em primeiro lugar, o número de xiitas que se autoflagelam na Ashura é quase tão insignificante quanto o de católicos que se deixam crucificar na Páscoa. Em segundo, os que assim o fazem não estão expressando ódio de si mesmos, mas lembrando um fato ao mesmo tempo histórico e mítico: o Massacre de Kerbala. 

No ano de 680, em meio a uma disputa entre árabes muçulmanos pela sucessão do profeta Maomé, o neto deste, Hussein, aspirante ao posto de califa, foi massacrado juntamente com familiares e seguidores na localidade de Kerbala, hoje situada no Iraque.

O algoz de Hussein foi o califa Yazid, e o fato marcou a divisão permanente do Islã entre dois ramos, o dos vencedores e o dos vencidos em Kerbala. Os vencedores constituem o que se chama Suna (em árabe, “costume”) e consideram que o comando da comunidade muçulmana cabe a qualquer indivíduo devoto apontado pelos demais. 

Os vencidos formam a Xia (de “Xia t’Ali“, ou “partido de Ali“, em árabe, em referência ao imã Ali, sobrinho e genro de Maomé e pai de Hussein), e consideram que o califado foi usurpado de Hussein, a quem caberia o posto por ser neto de Maomé. Os sunitas constituem a maioria dos muçulmanos no mundo inteiro. 

Por razões históricas, os xiitas estão concentrados principalmente no Iraque, no Irã, na Síria e no Líbano, embora existam comunidades menores em todo o mundo islâmico, do Egito à Índia.

A Ashura não é tão bizarra quanto parece. Ou, pelo menos, não tanto quanto qualquer outro tipo de comportamento humano.





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