sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Marina e o destino – Por Alexandra Lucas Coelho

Marina Silva é daquelas figuras tão frágeis que parecem quebrar-se nos abraços. A caminho dos 60, tem leveza e voz de menina. Tudo nela, mesmo quando exausta, resulta gentil, com a firmeza de quem vem dos confins, e o que ela andou para aqui chegar. 

Entrevistei-a no fim de 2010, depois de uma longa campanha, uma longa eleição, em que Marina foi a perdedora ganhadora, ao forçar uma segunda volta, com 20 milhões de votos. 

Quatro anos depois, neste Agosto tão intenso, pelo menos aqui no Alto Alentejo, estava eu a pagar compras de supermercado quando ligou uma amiga brasileira a dizer que o avião do Eduardo Campos tinha caído. Ao chegar a casa, a primeira imagem que vi era de Marina. Parecia que muito mais do que quatro anos tinham passado. Aquele era o dia em que tudo, de novo, a lançava para a frente. 

“A Marina tem algo de sebastianista”, diz o meu amigo Marcos Lacerda, via Skype. Já aqui falei dele, sociólogo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, paulista amador do Inverno, nunca realmente convertido ao Rio. O próprio Marcos tem algo de sebastianista, diria eu. Mas ele já prosseguia, enquadrando: 

“As manifestações de Junho de 2013, a reaparição do anarquismo como força política, o surgimento de novas narrativas políticas além do embate entre neodesenvolvimentismo e neoliberalismo, o fiasco da selecção brasileira na Copa do Mundo e, por fim, a queda do avião do Eduardo Campos.” Tudo isso culminando na reaparição da força política de Marina, que muda o quadro eleitoral.

Depois, há a biografia: Marina vem de uma família de 11 irmãos, nasceu e foi criada em casa de palafita, trabalhou desde criança, inicialmente como empregada doméstica, e só foi alfabetizada aos 16 anos; é uma cabocla do Acre, no Norte do país, um Estado bem longe do “Sul maravilha”; é mulher e negra; é evangélica; e “não usa o jargão que as classes médias cultas e socialmente privilegiadas aprenderam nas universidades”, elenca Marcos. 

Ao mesmo tempo, de forma tropicalista, digamos, junta tudo isso “a um discurso conciliador, ao relativismo liberal, com apoio de banqueiros e líderes seringueiros”. E ainda tem este nome: Maria Osmarina. 

Em suma, resume o meu amigo, há nela “um quê de milenarista, de messiânico, com uma força estranha, como se ela encarnasse um momento histórico específico”. E vale lembrar que no Brasil “o milenarismo teve um papel fundamental na luta popular revolucionária”, desde o início do século XX à guerrilha contra a ditadura civil-militar, personificada pelo comunista Carlos Marighella, a quem Antonio Candido chamou “Santo Laico”, e que na canção dos Racionais MC aparece como “o novo Messias”. Remata o Marcos: “Agostinho da Silva dizia que nós escolhemos o lugar onde nascemos, que há um destino na nossa vida. São muitos sentidos concentrados na Marina, muita coisa ligada à história recente do Brasil que ela encarna.” 

Isto, ressalva, “no meio de muita bobagem sendo escrita sobre ela, muita política rasteira, muito preconceito com a fé religiosa dela”, quando “a comunidade evangélica é bem heterogénea, não se resume aos grupos mais conservadores”.

Há muita gente que à primeira não votaria em Marina ou tem objecções quanto a ela, mas que votaria nela apesar de tudo, numa segunda volta

Depois de em jovem ter querido ser freira, Marina diz que se mantém próxima da Teologia da Libertação e amiga de Leonardo Boff e Frei Betto, mesmo tendo-se convertido há muito à Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil. E não será a fé a impedir Marcos de votar nela daqui a 35 dias (ele vai votar nulo). 

Nem a perspectiva milenarista (embora, idealmente, para o Marcos, esse milenarismo devesse ser “de esquerda popular revolucionária”). O que o afasta, explica, são “as limitações do programa político, as contradições das alianças partidárias que, de resto, estão presentes em todos os outros candidatos”. Ou seja, um programa, que sendo de centro “flerta com a direita e timidamente com a esquerda”. 

Marina, que ia ser vice de Eduardo Campos, e por causa da queda do avião o substitui, está com nada menos que o triplo das intenções de voto que ele tinha. De acordo com as sondagens, passa à segunda volta, e pode mesmo ganhar a Dilma. Uma das suas grandes vantagens é a baixa rejeição, ou seja, a pouca quantidade de gente que nas sondagens diz que não votaria nela de forma alguma. 

Enquanto 18 por cento não votariam mesmo em Aécio Neves, 36 por cento não votariam mesmo em Dilma, e apenas 10 por cento não votariam mesmo em Marina. Isto significa que Marina, que já vai alta nas previsões, tem a maior margem de crescimento. Há muita gente que à primeira não votaria em Marina, ou tem objecções quanto a ela, mas que votaria nela apesar de tudo, numa segunda volta. 

Na entrevista que lhe fiz em 2010, Marina disse: “Venho de uma trajectória de esquerda e defino-me como uma pessoa que superou a ideia de que o supremo bem está na esquerda e o supremo mal está na direita.” 

Além da economia, as zonas onde Marina perde mais votos à esquerda são descriminalização do aborto, legalização da maconha e casamento homossexual. Quanto ao aborto, a posição dela é ser contra, mas defender um plebiscito. Voltando à entrevista: 

“Entre criminalizar e descriminalizar, o que se pode fazer para evitar? Que as pessoas possam ter melhor planeamento familiar, que as adolescentes possam ser melhor assistidas. Defender a vida é um princípio, mesmo que não tivesse fé, defenderia isso. Então, quero favorecer a vida, e que a gente se responsabilize por ela, saber quais são as informações que precisamos trazer para esse debate, e não a satanização de quem é a favor e contra.” 

Já em relação ao casamento homossexual, parece ter havido uma alteração no discurso. Em 2010, na mesma entrevista, ela diz: 

“Pelas minhas objecções de consciência não sou favorável. Mas direitos civis, sim, A comunidade gay tem direito ao seu plano de saúde conjunto, à herança, porque tiveram o património de uma vida juntos. Quanto ao casamento, para mim, é algo que acontece entre um homem e uma mulher.” Desde então, o casamento gay foi reconhecido. E agora leio que a posição oficial da campanha dela é: 

“Marina considera que as relações homoafetivas estáveis devam ter os mesmos direitos civis que as relações heteroafetivas. O Supremo Tribunal Federal já deu a essa união o estatuto de casamento civil. A questão legal sobre o tema está, portanto, resolvida no Brasil. De maneira similar, Marina é a favor da adoção de crianças por casais homossexuais.” Mais do que muitos crentes portugueses podem dizer. 








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