segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Índia assustada com conversões forçadas – Por Leonídio Paulo Ferreira



Há algumas nuvens negras no horizonte da coexistência religiosa na Índia. Em dezembro um grupo de 200 muçulmanos pobres do Uttar Pradesh foi atraído a uma cerimónia de conversão ao hinduísmo a troco de senhas alimentares.

O partido nacionalista hindu ganhou as eleições em maio de 2014 com a promessa de relançar a economia, mas grupos extremistas ligados às origens do BJP têm usado a proximidade ideológica com o governo indiano para aliciar grupos de gente pobre muçulmana ou cristã a adotar a religião maioritária. 

Estes escândalos estão a prejudicar a imagem do primeiro-ministro Narendra Modi que, se na última década se afirmou como gestor de sucesso, tem um passado cheio de episódios pouco claros sobre a sua relação com as minorias de outras fés, sobretudo a islâmica

Um dia perguntaram a Mohandas Gandhi se só as religiões indianas deviam ser autorizadas na Índia. Sim, disse o Mahatma, "as religiões indianas, como o hinduísmo, o islão ou o cristianismo".

Aquele a quem o poeta Rabidranath Tagore batizou de "Grande Alma" (Mahatma em sânscrito, a língua que para a civilização indiana é o equivalente do nosso latim) mostrava na resposta tanta ironia como sabedoria. 

Afinal, se hinduísmo, jainismo, budismo e sikhismo nasceram no que é hoje a Índia, todas antes da nossa era tirando a última, o islão existe no subcontinente logo desde o século VII e o cristianismo será tão antigo que, diz a lenda, terá sido trazido pelo apóstolo Tomé. 

Sobretudo, Gandhi, tal como Jawaharlal Nehru, sempre defendeu uma Índia multirreligiosa, por contraponto ao Paquistão ambicionado por Mohammed Ali Jinnah, que seria a pátria para os muçulmanos indianos criada aquando da partida dos colonizadores britânicos em agosto de 1947.

Passadas quase sete décadas sobre uma sangrenta partição, o Paquistão é uma república islâmica e viu o Bangladesh fazer secessão, enquanto a Índia continua uma democracia laica, onde uma larga maioria hindu coexiste com uma minoria islâmica que ultrapassa os 180 milhões de pessoas, tantos como os paquistaneses. 

Presentes em todas as esferas da vida indiana, os muçulmanos tanto dão estrelas de cinema a Bollywood como políticos a Nova Deli, caso de Abdul Kalam, o cientista nuclear que foi Presidente da República entre 2002 e 2007 e que, através da sua história de vida, serve ainda hoje de inspiração para milhões de jovens indianos, de todas as fés. 

A sua autobiografia, intitulada: "Asas de Fogo", foi um tremendo sucesso de vendas, tal como um livro posterior sobre como fazer para que a Índia se torne um país desenvolvido e acabe com a velha imagem de grande pobreza.

Mas há algumas nuvens negras no horizonte da coexistência religiosa na Índia. Em dezembro um grupo de 200 muçulmanos pobres do Uttar Pradesh foi atraído a uma cerimónia de conversão ao hinduísmo a troco de senhas alimentares. E pouco depois as autoridades tiveram de proibir uma conversão em massa de cristãos marcada para o próprio dia de Natal. 

Por trás destes dois acontecimentos está um grupúsculo extremista que considera que todos os 1.200 milhões de indianos descendem de hindus, mesmo que em alguns casos, o das minorias religiosas, aleguem que tenha havido antepassados que foram obrigados a converter-se a outras fés.

Ora, tal só em parte é verdade. Houve conversões forçadas, sobretudo ao islão, que chegou a ser a religião dos governantes durante o sultanato de Deli e depois o Império Mogul. Mas também houve gente que veio de fora e fez da Índia o país dos seus filhos e netos (caso de muitos portugueses depois da chegada de Vasco da Gama a Calecute em 1498, como os Mascarenhas, os Noronhas ou os Fernandes) e outros que se converteram de livre vontade, adotando os apelidos dos padres que os batizaram. 

São inúmeros os exemplos de membros das castas mais baixas que se converteram para escapar ao sistema social hindu, sobretudo ao islão e ao cristianismo, mas também ao budismo, como aconteceu com o pai da Constituição indiana, B. R. Ambedkar, nascido como intocável, os harijans ("Filhos de Deus") segundo Gandhi, hoje chamados dalits.

No caso do catolicismo, como testemunha a experiência portuguesa de quase 500 anos em Goa, houve também casos de brâmanes (a casta superior, a dos sacerdotes) a converter-se, mesmo que de geração em geração fossem passando tradições hindus que conciliavam com a nova fé.

As conversões forçadas estão a embaraçar o governo nacionalista hindu do Bharatiya Janata (BJP), que nas eleições de maio de 2014 obteve uma robusta maioria absoluta no Parlamento, pois estes grupos que as promovem estão na base do partido. E sobretudo relançam sobre o primeiro-ministro Narendra Modi as suspeitas de que é uma figura intolerante com as minorias, ofuscando o seu passado brilhante como ministro-chefe do Gujarate, verdadeiro caso de sucesso económico, e recuperando a sua alegada passividade quando em 2002, no seu estado, multidões hindus linchavam muçulmanos. 

Pelo menos mil pessoas morreram nos confrontos, na sua larga maioria da comunidade islâmica, mas Modi sempre declarou a sua inocência.

No passado, o BJP já deu provas de ter desistido da política de hinduidade (por exemplo, propôs e apoiou a candidatura de Kalam à presidência) e a verdade é que a votação maciça em Modi se deveu aos seus créditos na economia. Mas os extremistas hindus têm aproveitado a sua ligação ao partido no poder para convencer os pobres de que haverá subsídios para quem se converta.

As pressões são agora para que Modi condene com firmeza estes atentados à liberdade religiosa num país que construiu ao longo de séculos uma tradição de tolerância. Algumas das suas comunidades chegaram como refugiados, caso dos parsis, que há mil anos vieram da Pérsia para escapar à perseguição feita pelos muçulmanos aos zoroastristas. 

Serão hoje apenas cem mil pessoas, mas muito poderosas na economia: Ratan Tata, um dos grandes magnatas indianos, é um parsi. Mais pequena ainda é a comunidade judaica, mas que deu o major-general Jacob, o chefe militar indiano que em 1971 derrotou o exército paquistanês e ajudou o Bangladesh a tornar-se independente.




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