segunda-feira, 15 de junho de 2015

Religiões e seitas: o que nos dizem sobre nossa vida em sociedade? – Por Anna Carolina Lo Bianco



As religiões propõem obrigações morais e sacrifícios do prazer imediato; as seitas oferecem serviços e bens, com satisfação em curto prazo.

Basta uma superficial olhada na paisagem das principais cidades brasileiras para vermos a profusão de monumentais construções que abrigam um sem número de templos das mais variadas seitas. Surgidas, em geral, há pouco mais de duas décadas, indicam a ubiquidade do que podemos considerar novas formas de religião. 

Um olhar psicanalítico nos permite localizar no constante recurso às novas religiões e no sucesso que alcançam, uma importante dimensão do tipo de vínculo que prevalece na nossa vida em sociedade.

Cientistas sociais muitas vezes apontam para o poder organizador não desprezível desses movimentos. E não seria difícil, na comparação entre famílias que se afiliam às seitas e as que não o fazem, reconhecermos os efeitos positivos que o pertencimento a um grupo religioso frequentemente traz. Sobretudo se pensamos em uma sociedade violenta, com os alarmantes índices de criminalidade e de homicídios como os que caracterizam nossas grandes cidades e suas populações, acreditamos ver nas seitas efeitos apaziguadores que, no entanto, devem ser questionados. Pois eles próprios, numa reviravolta nem muito complexa, poderão ser encontrados quase sempre nas mesmas raízes dos fenômenos de violência.

Por isso é interessante nos perguntarmos que subjetividades estão aí implicadas e como elas se articulam e sustentam os laços sociais que habitamos. Mesmo que de forma um tanto esquemática, podemos esboçar uma diferença relevante e uma inflexão marcante que se anunciam na vida social, refletindo-se nas instituições religiosas, que deixam então de ser consideradas apenas como uma resposta homogênea ao mal-estar e ao sofrimento com que nos defrontamos no dia a dia da cultura, para serem indicadores privilegiados das circunstâncias da própria vida cultural.

A religião do pacto

Ao criar o que foi considerado o último mito moderno, Totem e tabu, Freud encontra os meios para falar da primeira forma de manifestação religiosa: o totemismo. Reconhece então a sua articulação necessária com configurações sociais e obrigações morais que constituem estas últimas.

Macho e forte, o pai era senhor da horda inteira, possuía todas as mulheres e exercia poder ilimitado e violento sobre os filhos, os quais acabaram por assassiná-lo. Entretanto, se o haviam odiado, o veneravam como arquétipo e, em realidade, cada um deles queria ocupar o seu lugar. 

Ao parricídio se sucedeu uma época em que os irmãos lutavam entre si pela herança paterna; mas logo a lembrança da façanha que os havia livrado do estado de avassalamento em que se encontravam, assim como o sentimento que partilhavam acerca daquela época, os levou finalmente a se unirem e a fazerem um pacto. 

Freud diz que “nasce assim a primeira forma de organização social com renúncia do pulsional, reconhecimento de obrigações mútuas, estabelecimento de certas instituições que se declararam invioláveis (sagradas); vale dizer: os começos da Moral e do Direito”. Desta maneira, se estabeleceram o tabu do incesto e as leis da exogamia que sustentam a organização social.

É nesta configuração social regida pelo pacto que surge o totemismo, a primeira indicação da religião na história humana, que encontra no totem a figura paterna e tem no banquete totêmico a expressão da ambivalência de sentimentos para com o pai assassinado e amado.

A força do mito de origem freudiano está nas condições que ele oferece para que venham a se alinhar no mesmo fio todas as religiões que então se sucederam. Elas sustentam, ao mesmo tempo que revelam, o pacto sobre o qual se erige a sociedade. 

A instauração dos monoteísmos, elegendo um deus-pai único que governa sem limitação, bem como o rito da comunhão onde os fiéis incorporam a carne e o sangue de Jesus, são exemplos que repetem o sentido e o conteúdo do antigo banquete totêmico e guardam a dimensão de partilha dos mesmos sentimentos os quais garantem um lugar simbólico para o pai, entre os irmãos da horda.

E, certamente o sujeito que resulta de tal arranjo social é propriamente sujeito ao pacto. Vale dizer, é aquele que deixa de resolver os conflitos com os meios da violência exercida por um só, ou por indivíduos, e se submete ao Direito que expressa o poder de uma comunidade. 

As leis dessa nova associação determinam agora a medida em que cada um deve renunciar à liberdade individual de obter o seu bem a qualquer custo, para que venha a ser possível a convivência em sociedade. Surge, nas boas hipóteses, o sujeito obrigado a afastar ou pelo menos a manter sob controle suas demandas, suas tendências e inclinações que serão atendidas apenas até o ponto em que não se sobreponham ao bem comum.

O conflito, não tendo sido eliminado, é claro, pois como Freud lembra, há uma “desigualdade inata e não eliminável entre os seres humanos” que constantemente gera tensões insolúveis, ainda assim terá que ser domado ou regulado.

Temos aí de forma breve, mas clara o bastante, as razões para considerarmos que as religiões são paralelas aos progressos culturais do gênero humano, ao mesmo tempo que acompanham e revelam as expressões subjetivas e as alterações da vida em comunidade.

As seitas dos contratos

Serão estes sujeitos ao pacto os mesmos que as seitas que vemos disseminadas por nossas comunidades evidenciam?

Estudos etnográficos cuidadosos como o de Emerson Giumbelli em O fim da religião (Attar, 2002) dão testemunho preciso do que nós mesmos cansamos de ver nas diuturnas pregações dos pastores nas televisões. Tudo se passa na dimensão da troca: os fiéis pagam o dízimo para obter um milagre e são incentivados a cobrarem de Jesus a operação dos milagres pelos quais pagaram. Há mesmo relatos de templos em que se encontra na porta o aviso: “seu milagre garantido ou seu dinheiro de volta”.

À dimensão do pacto se substitui agora a de um acordo regido pelos serviços dos bens. Acordo que visa à satisfação completa das partes envolvidas, tomadas ademais em uma relação igualitária, horizontalizada. 

Trata-se aqui de alguém que se reivindica o suposto direito à igualdade em todas as esferas do cotidiano e as relações cada vez menos reconhecem diferenças como as geracionais ou as sexuais. Não há um terceiro por referência ao qual a ordem se estabeleça e venha a se assentar na renúncia à satisfação imediata. Na verdade, passa-se até mesmo a se exigir e a se contar com a fidelidade de Deus! Os adesivos nos carros comprovam que “Deus é fiel”.

As religiões, se ainda podemos chamá-las assim, falam agora de uma sociedade onde vigoram novas relações contratuais. É a época em que o Direito que se instalara com o pacto, implicando em obrigações morais e sacrifícios do prazer imediato, tende a ser ultrapassado por um “direito do consumidor”. 

Trata-se então de garantir a satisfação demandada pelo cliente que, afinal, tem sempre razão. As seitas se oferecem como prestadoras de serviços e bens e vivem de fazer promessas de satisfação em curto prazo. Não estaríamos “nesse momento a que chegamos na civilização” frente a um sujeito de direitos, um sujeito-consumidor?

Acreditamos, portanto, que para além das semelhanças que unem religiões tradicionais e movimentos religiosos recentes, marcados todos pela mesma busca da felicidade e do alívio para o mal-estar, ou seja, articulados todos para garantir os meios de apaziguamento do sofrimento, há diferenças acentuadas entre ambos, que apontam para distintas configurações do laço social.

Ainda uma última palavra para lembrarmos que, enquanto nas religiões tradicionais se trata da referência a um pai morto que, portanto, ocupa um lugar que é simbólico, encontramos agora nos membros das seitas uma convicção obcecada acerca do saber e da autoridade de um fundador encarnado que vem prometer a facilidade do encontro com os objetos da satisfação inadiável. 

De um assujeitamento ao simbólico, a esse “pai morto”, passa-se assim à adesão a um líder. As consequências dessa afiliação cega, no mais, nos trazem imediatamente à memória o filme de horror já visto no nazismo que marca o século XX, e marcará todos os outros depois dele.

Anna Carolina Lo Bianco - é professora do Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ. Membro do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica.






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