segunda-feira, 15 de junho de 2015

Caminhada da Fraternidade chega a 20ª edição e declara abraço da Igreja à diversidade - Por Rayldo Pereira



Um ato de solidariedade em prol dos portadores de HIV acolhidos pelo Lar da Fraternidade, assim foi definida a Caminhada da Fraternidade, quando ganhou as ruas de Teresina pela primeira vez em 1995. 

Nascida do apelo dos que eram excluídos da sociedade, 20 anos depois a caminhada quer mostrar que para a Igreja Católica de Teresina não há razões para excluir, e nas palavras de seu idealizador, padre Tony Batista, "a caminhada abraça a diversidade".

"A Caminhada da Fraternidade hoje abraça a diversidade. Ela não exclui, acolhe com amor como um coração de mãe e nós não precisamos saber seu partido político, sua orientação sexual ou qualquer outra coisa. O que nos interessa é que somos todos humanos e filhos de Deus. Aqui lutamos contra qualquer preconceito e pelas pessoas que seriam abandonadas e agora são acolhidas. É uma verdadeira chuva de graça", definiu o padre.

A pequena casa de outrora, hoje dá lugar a um casarão com 38 leitos onde funciona o Lar da Fraternidade. O crescimento é resultado da mesma equação que multiplica também os números da Caminhada, que iniciou beneficiando somente uma instituição e hoje atende a mais cinco - Centro Maria Imaculada - Lar de Misericórdia - Projeto Canguru - Lar da Fraternidade - Centro Educacional Santo Antônio e Centro de Atenção a Pessoa Idosa "Nossa Casa". 

Com o tema: "Servir É o Caminho", o evento reuniu este ano cerca de 70 mil pessoas em Teresina neste domingo (14/06), e para a organização, consolida o apelo da igreja pela fraternidade e solidariedade. 

"É a resposta do nosso povo ao chamado. Não existe em Teresina uma instituição que tenha dito não ao nosso pedido de apoio. Em todos os lugares onde bati a porta, nunca ouvi um não", reforçou o padre.

Em meio a multidão, não é difícil comprovar que o evento realmente abarca uma mistura infinita de pessoas. Pobres, ricos, jovens, idosos, deficientes, religiosos, atletas e até moradores de rua, todos unidos com um mesmo propósito, transmitir a mensagem do serviço e da renovação de uma igreja que se abre para a diversidade.

"Sou moradora de rua há oito anos por conta de conflitos com a família, mas o acolhimento e a ajuda que recebo na pastoral e nos programas assistenciais da prefeitura me dão a certeza de que tudo dará certo. Acredito que Nossa Senhora das Graças vai realizar um milagre em minha vida", é a mensagem impactante deixada por Mabel Dias da Costa, de 45 anos.

A moradora de rua conta que recebe ajuda do Creas POP, do albergue da Semtcas e do Centro de Direitos Humanos, além de catecismo, doações de roupa e alimentos, e até mesmo a palavra amiga da Igreja. Para ela, estar na Caminhada da Fraternidade e vestir a camisa com a mensagem "Vozes da Rua", serve de exemplo para outras pessoas em situação de vulnerabilidade de que a fé pode acalmar o coração, mesmo diante dos desafios da vida.

"Eu sei que muitos precisam de ajuda, mas sei que um milagre Deus irá realizar. Dando paciência, fé, esperança e amor para que todos possam ser acolhidos, recebidos e cuidados. Eu sei que existe gente em situação pior que a minha, mas as pessoas precisam entender o propósito de Deus em nossas vidas. A minha oração, que faço hoje nessa Caminhada, é que eles consigam através da família conseguir o apoio, a ajuda, e serem felizes com sua vida em ordem", comentou Mabel, visivelmente emocionada com a participação no evento religioso.

Exemplos de fé

Histórias de devoção e força de vontade não faltam em meio aos fieis. A cada ponto da avenida Frei Serafim, tomada pela caminhada, é fácil encontrar famílias inteiras que se reúnem para participar, como a de Stefanie Maria, de 24 anos, que traz um carro de som para todas as edições da caminhada, ou a família de Lidiane Maria e Alexandre Carvalho, que levaram a filha de apenas três anos, "queremos dar o exemplo para nossa filha de como devemos amar e ser unidos com nossos irmãos", explica Lidiane. 

Até mesmo as jovens irmãs Maria Eduarda Freitas, de 13 anos e Geovanna Vitória Freitas de 15 anos, que participam do evento pela primeira vez com enfeites na cabeça afirmam: "com os acessórios mostramos nossa fé, porque devemos mostrar que acreditamos".

Outro grande exemplo de fé sem exclusão é a participação de representantes e pacientes da Fazenda da Paz, instituição terapêutica que tem por objetivo prevenir, tratar e reinserir na sociedade farmacodependentes e alcoólatras. Para Raimundo Nunes, representante da instituição na caminhada, a presença deles no evento serve como espaço de inserção.

"Nós estamos sempre presentes em todas as mobilizações da igreja pois isso serve como inserção social para nossos pacientes, independente de religião, o nosso objetivo é participar", declarou Raimundo.

Idade não é limite

Para quem pensa que a idade pode ser um fator limitador, os idosos, grandes e empolgados "caminheiros", dão o exemplo. Gorete Cardoso Figueiredo, de 81 anos, conta que participa da caminhada há 19 anos e que sempre se sente acolhida. Já Maria da Graça, uma senhora feliz e sorridente que acenava de sua cadeira de rodas, surpreende com a vitalidade e alegria no auge de seus 99 anos.

Beirando o centenário, a idosa é acompanhada de perto por sua filha Sara Pereira Mota e comemora sem cansaço: "Participo da caminhada porque é um verdadeiro ato de amor".

Mesmo no calor e sob o sol forte, a idosa, prestes a completar os 100 anos, cantava, acenava para as pessoas, sorria e rezava enquanto e acompanhava toda a procissão de fieis que seguia para a avenida Nossa Senhora de Fátima, entrando na zona Leste de Teresina. Ao mesmo tempo que a multidão chegava a avenida, outra parte ainda ocupava toda a extensão da avenida Frei Serafim, o que dá ideia da grandiosidade do evento.

Francisco é renovação

O frei capuchinho Francisco, afirma que além de tudo, a caminhada é "Uma grande atitude cristã. Para ele, além de um ato solidário, o evento marca a maior mobilização da igreja católica no município e serve de manifestação de trabalho e serviço. É uma grande atitude cristã. Na vida religiosa, percebemos que em outras religiões se mobilizam mais e para nós católicos essa é uma forma de mortrarmos que também nos empenhamos e com amor, exercemos nosso direito de manifestar", explicou.

O frei, que carrega o mesmo nome escolhido por Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, fala de renovação dentro da igreja e acredita que as novas posturas de aceitação a diversidade, pregadas pelo papa, são na verdade inspirações superiores. 

"A renovação da igreja através do papa é um sopro do espírito santo. As pessoas não acreditam nessa ação superior, mas essa renovação de humildade e inspiração do papa é um grande sopro", enfatizou o religioso.

Dom Jacinto Furtado, arcebispo de Teresina, também procura demonstrar que a igreja devolve com amor, atitudes que foram consideradas por alguns religiosos como desrespeitosas. Para ele, o evento na capital piauiense serve de resposta, por exemplo, a manifestações na parada Gay de São Paulo.

"Nossa resposta é de abaixar-se e de servir. A caminhada saiu da boca de uma pessoa antigamente e hoje é terreno fértil do amor de Deus. Esse terreno está nos nossos corações", afirmou durante sua homilia na missa realizada antes da caminhada.

Teresina contribui

Para ocorrer com tranquilidade, a caminhada contou com o apoio de vários órgãos como a Polícia Militar, a Polícia Rodoviária Federal e a STRANS, isso para cuidar somente do trânsito da capital. Jean Carlo, chefe da 1ª delegacia da PRF explicou que foi feita a interdição das vias de acesso que levavam as avenidas durante toda a manhã. "A população de Teresina contribuiu e tem obedecido bastante nos ajudando a organizar e garantir que o evento ocorra com tranquilidade", explicou.

Tranquilidade que gera confiança para mães como Dazes de Moraes, de 68 anos, que leva o filho Ryann Leme, de 25 anos, que tem síndrome de Down a todas as edições do evento. "A caminhada acolhe a todos e é sempre uma alegria estar com ele por aqui", afirmou.  

Até mesmo protestos ganham espaço, porquê não, neste evento democrático. Silenciosamente, mas com uma grande mensagem a transmitir, o funcionário público Carlos Arres, usava uma máscara do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Para ele, a luta contra a corrupção deve estar presente em todos os espaços, mas a política e a fé são assuntos que não devem se misturar. 

"Venho com essa máscara para pedir o fim da corrupção e deixar o alerta aos nosso políticos que misturar a fé com a política não é bom e não traz grandes avanços", declarou.

Não precisou ser atleta para concluir os 6 km do percurso da Caminhada da Fraternidade, mas eles estavam lá, representando sua força de vontade e o incentivo à busca pela saúde. 

Thayla Gleyciane e Jamison henrique, adeptos do Kangoo Jump, usaram suas botas especiais e pularam alto durante o evento, mas foi ao fim do percurso que o atleta da seleção piauense de basquete em cadeira de rodas, Wagner Vasconcelos deixou o maior exemplo. "Completei a caminhada inteira na minha cadeira e isso deve servir de incentivo a todos, para que vejam nossa luta pela acessibilidade", completou.


Sucesso de público e em demonstrações de fé, a 20ª Caminhada da Fraternidade terminou com shows e queima de fogos na avenida Universitária, zona Leste de Teresina. No local, padre Tony Batista, que declarou seu abraço a diversidade no início da caminhada, já comemorava a resposta das ruas e reforçava a importância do serviço na vida dos católicos e cristãos.

"Como costumo dizer, estou escandalosamente feliz pela resposta do nosso povo. Foi realmente espetacular. Ainda não tenho a menor ideia do quanto foi arrecadado, mas o que importa é que mostramos que servir é o nosso caminho e se não serve, não deve viver", concluiu.




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